terça-feira, 11 de abril de 2023

Aki Kaurismäki

Há poucos dias o JN publicava um texto muito interessante acerca do cineasta finlandês, Aki Kaurismaki.




















informando que vivia parte do ano em Viana do Castelo ou melhor, que passava metade do ano na região de Viana do Castelo.

Acontece que sendo Viana do Castelo uma grande metrópole não será lá muito fácil saber-se qual foi o  sítio que Aki Kaurismaki escolheu para passar metade do seu ano.

Em primeiro lugar é até divertido ter uma ideia de quem é Aki Kaurismaki - aquele mesmo que frequentava o meu Tio Luís -.
e silencioso bebia a sua tijela de vinho.

É aquele cineasta que no ano de 2002, ganhou o  prémio do festival de Cannes como seu filme The Man Without a Past.

Nesse mesmo ano, este mesmo Kaurismaki, ganhara também o festival de Cinema de Nova York. No entanto recusou-se a ir receber o prémio  dado que o cineasta iraniano Abbas Kiarostami não tinha obtido autorização de entrada nos EUA para participar nesse mesmo festival.

Cito de memória a sua justificação:

"Nestas circunstâncias também eu sou forçado a cancelar a minha participação. Se  o actual governo dos EUA não quer um iraniano, muito dificilmente encontrarão qualquer utilidade num finlandês. 

Realçando

- Nós nem sequer temos petróleo!"

Mais continuo a citar de memória um recorte de uma entrevista na altura em que disse estar ocupado e que estaria em Areosa a tratar das couves.

Por volta de 2002 e já depois de  Aki Kaurismäki    ter ganho o
tal prémio do festival de Cannes como seu filme The Man Without a Past, encontrei no bar do Carvalho em Afife um condutor de um TIR, finlandês. 

Demasiado palavroso para finlandês. 

Meteu conversa connosco de tal ordem que me explicou porque era mais expansivo que os seus compatriotas o eram  na generalidade. Viajava por toda a Europa e estava habituado a contactar com gente de todo o lado.

Na altura resolvi "brincar" com ele e disse-lhe que conhecia dois finlandeses, um ali em Afife  e um outro, dos mais famosos de então, era meu vizinho. 

Ficou mais surpreendido, ainda, quando lhe disse que ele sabia de quem eu estava a falar.

- Lasse Viren???

- Ari Vatanen???

- Não, um finlandês mais actual, conhecido por ter ganho um prémio muito recentemente.

- Kaurismaki???

Acertou! Não sem manifestar a sua admiração por eu lhe assegurar que era meu vizinho.

Para o demonstrar, fui buscar a lista telefónica e procurei em K um nome começado por A e lá estava.



Kaurismaky, Aki Olavi, Além do Rio - AREOSA


NOTA

Abbas Kiarostami - Falecido em 2016

sexta-feira, 7 de abril de 2023

ChatGPT

 Nem fazia ideia no que quer que isso fosse.

Até que encontrei na página do Fernando Cerqueira Barros um texto, pelos vistos vindo dessa coisa e sobre a CANA VERDE. 

Pelo cheiro pressenti algo vindo do Brasil, estranhando a mistura da Gaita de Foles com o bambu. Talvez do tempo do Pêro Vaz de Caminha, que por não ter incluído a partitura na carta que escreveu ao Rei, ficou por saber-se se a musica que os colonialistas portugueses deram aos índios seria uma Cana Verde ou um Fandango.

Acontece assim que essa coisa do ChatGPT é tanto e muito mais perigosa que a Wikipédia dado que enquanto nesta a informação vem de mão humana, naquela virá de um algoritmo ou de um algoritmo de algoritmos. Inteligência artificial, chamam a essa nova ferramenta.

E o perigo não está na existência dessa palermice. Segundo Tiago Ramalho no PUBLICO de hoje e eu assino por baixo, o perigo está em que...

"Quando os humanos lêem a resposta do ChatGTP são influenciados por ele e tendem a ter a mesma opinião e argumentação"

Isto segundo um estudo dos americanos (americanos, mas inteligentes).

Ora acontece que tudo o que favorece a preguiça mental que nos leva ao cómodo acto de não pensar, conduz-nos à cretinice e à imbecilidade. Ou à simples situação de ignorância, facilmente ultrapassada pelos honestos.

No entanto achei particularmente interessante a questão que terá sido colocada ao tal GPT e dada como dilema clássico 

" - É correcto sacrificar uma pessoa para salvar outras cinco pessoas?"

Não digo que esse dilema colocado por Tiago Ramalho seja o dele. Nem acredito que o seja. Está no texto como exemplo.

Assentando num situação já por mim enfrentada sempre direi que a idade é um posto. Quando tinha vinte anos considerava os de cinquenta - velhos! - Velhos mas respeitados.

Hoje tenho setenta e quatro e fico espantado quando me cruzo com gente mais nova que pensa que o mundo começou no exato momento em que nasceram.

Já me aconteceu, duas vezes, ser "elogiado" por gente de quarenta anos, pelo facto de "saber" falar (bem) inglês. Como se isso fosse um espanto. Em ambas as ocasiões perguntei a idade ao meu interlocutor

- Quarenta anos! - À volta disso!

Pois é! Quando o senhor nasceu já o meu curso de inglês tinha quinze anos! - Foi o meu comentário (que ambos devem ter compreendido)

Isto para concluir que para conseguir uma resposta ao tal dilema...

" - É correcto sacrificar uma pessoa para salvar outras cinco pessoas?"

É uma perda de tempo recorrer ao tal GPT.

Basta estar atento à divisa dos Bombeiros Portugueses.



quarta-feira, 5 de abril de 2023

ZARAUTZ

 É um pequeno Município no País Basco.

Tem uma daquelas praias que levam a que se vá ao País Basco, que se chega lá numa manhã de viagem.












Lá, têm o culto do diatónico com a trikitixa como cá com as concertinas. 

Com o Fandango como nós com o Vira. 

Com as Arin-Arina como nós com a Cana Verde. 

Com o San Juan de Bermeo  Como nós com São João d'Arga. 

Com os versolari como nós com os cantadores ao desafio.

Tão parecidos connosco que se legendasse a imagem a seguir como Tocadores do Alto Minho num encontro de concertinas em Melgaço...

Quase que acertava.

Foi em Melgaço em 2001. 

Mas são os Bascos de Zarautz que também participaram.




domingo, 2 de abril de 2023

Abril muito Março ainda.

 Por Maria João Brito de Sousa – em 27 de Março de 2014


SONETO A UMA LONGA, FRIA, FEIA E ESCURA TARDE DE CHUVA               - Alegoria... e não só.


"Pr`a quê cantar a jovem Primavera

Que me não traga, acesa, a claridade

Que emite, lá no alto, a rubra esfera

Assim que se ergue e brilha em liberdade?



De que terá servido a longa espera

Se a chuva me roubar, pela metade,

Um céu que esconde um sol que mal tempera

Um dia que nasceu sem qualidade?



E, sob intensa chuva, a tarde fria

De que hoje vou falar, nem sei porquê,

Faz crer que o próprio verso se arrepia



Se, na estrofe final, disser que crê

Que mais depressa brilha um novo dia

Pr`a quem, no que se põe, tanto mal vê…



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Águas de Março diria eu

São as águas de março fechando o verãoÉ a promessa de vida no teu coração

Tom Jobim









Ana Sá Lopes

No PUBLICO de hoje!


“Os comunistas” levaram o campo da minha infância. E depois?

Cace o devoluto, senhor primeiro-ministro. As pessoas que não têm onde morar porque não conseguem pagar as rendas na Grande Lisboa vão ficar satisfeitas com o Governo

A minha infância teve um campo no Minho. Por alguma razão – penso que métrica – o meu avô insistia que não era uma quinta, mas um “campo”. Tínhamos um campo onde havia um corredor coberto de videiras, que só acabava num tanque de rega que ficava lá muito longe, tão longe que não se ouvia chamar para o jantar.

Para chegar ao campo atravessava-se o quintal – ao fundo uma horta, um regato onde vi lavar roupa, árvores das camélias, ameixoeira e a laranjeira da minha vida. Depois de uma portinhola, à esquerda era o poço e à direita o campo de milho. Se se quisesse ir para o sítio dos porcos e dos coelhos, atravessava-se mais um portão a seguir ao poço. Ao lado da casa dos porcos e dos coelhos ficavam as “cocheiras”, que sempre tiveram esse nome, apesar de, no tempo da minha vida, já só albergarem carros. E um piano velho.

O campo era imenso. A tia Lula comia as maçãs que ia tirando da árvore quando vinha connosco, não tinham “produtos”. Só a vinha era “sulfatada” — não nos podíamos aproximar do tanque do sulfato nem do poço quando estava aberto. Brincar no meio do milho, quando as folhas têm o dobro da nossa altura, era um privilégio difícil de explicar nos lugares onde não se cultivava milho.

Um dia, o campo acabou. Não foi aí que acabou a minha juventude (foi uns anos depois), mas o choque foi bruto. O que é que se passou? O Estado (a Câmara de Viana do Castelo) queria construir um pavilhão gimnodesportivo no nosso “campo” e o terreno iria ser expropriado. O valor monetário, lembro-me de ouvir na altura, era mais ou menos ridículo. O valor sentimental não tinha nome.

Havia aqui para o Estado um conflito: o direito ao desporto de uma comunidade já razoável e o direito à propriedade dos meus avós (e direito ao gozo dos descendentes e “in-laws”, éramos uns 20). O “campo” ficava na cidade. Era num dos extremos, mas era cidade. O meu avô lá fez o acordo com o Estado.

Sim, ainda tínhamos o jardim, a árvore das camélias e a minha laranjeira. E as cocheiras, claro. Ainda lá está tudo e a casa onde nasci. Não está o campo. Quando começou a crescer o mono do pavilhão gimnodesportivo, era odioso olhar para aquilo.

Quando Carlos Moedas vem este sábado fazer um manifesto em defesa da propriedade privada, dá-me vontade de rir, porque me lembro do “meu” campo e de tantos campos por esse país fora que foram expropriados em nome de bens maiores como auto-estradas, estradas, centros de saúde, hospitais, escolas, pavilhões gimnodesportivos. A habitação acessível também deveria estar contemplada no “interesse público” subjacente ao direito à expropriação.

Quem ouvir o discurso do PSD por estes dias – como assinalou aqui Manuel Carvalho – parece que está a ouvir os velhos latifundiários a manifestarem-se contra ocupações. Só que não há ocupações de espécie alguma, nem expropriações de casas, e até Costa faz questão de vir dizer que não vai “desencadear a caça ao devoluto”. Por acaso até era bom que andasse, a começar pelos prédios devolutos do Estado que deviam estar a servir o interesse público há muito tempo. Cace o devoluto, senhor primeiro-ministro. As pessoas que não têm onde morar – e são muitas, mesmo com salários acima da média – porque não conseguem pagar as rendas estratosféricas da Grande Lisboa vão ficar satisfeitas com o Governo.

A verdade é que cada vez que a direita acusa António Costa de ser comunista faz-lhe um favor imenso. O próprio já mostrou o gozo que isso lhe dá quando, no recente debate parlamentar, ironizou que o seu pai comunista “ficaria orgulhoso do filho”. Não há nada de comunista num pacote da habitação que até financia os especuladores, subsidiando as rendas especulativas.

É verdade que durante sete anos o Governo não fez nada de substancial para que a situação da habitação em Lisboa se revertesse. Antes pelo contrário. Permitiu a “turistificação” total em certas zonas da cidade, que teve lados positivos como a recuperação de uma boa parte do edificado que estava a cair aos bocados e a criação de empregos, mas que fez disparar os preços das casas. Agora está a fazer qualquer coisinha, mas está longe daquilo que se podia e devia encarar: se a expropriação é aceite para fazer estradas e pavilhões gimnodesportivos, porque não o é para criar habitação acessível? Quando me “tiraram” o campo da minha infância, ninguém teve dúvidas sobre a justiça social que estava subjacente à decisão. O problema é que, no ano de 2023, as duas palavrinhas são “comunistas”.

Nota

Ver JN de 

"Prevista demolição de 21 casas com a renovação da linha (CP) entre Contumil e            Ermesinde. Habitações que estão em uso!"


terça-feira, 28 de março de 2023

João Carlos Lagarto da Conceição

 Páscoa de 1973.

Terça-feira no regresso ao trabalho pelas oito e meia. Na sala de desenho dos ENVC chega a notícia;

- O João Carlos e o Eng Dámaso tinham tido um acidente ali na Somartis. Coisa grave!

O Ford Capri tinha parado de frente contra um camião que descera a Avenida Salazar e viera estacar na berma  poente do passeio da estrada EN13.


De Caminha para a foz

Ao entardecer a prata do Minho é atravessada pelos barcos que se esbatem no reflexo do Monte Galego.

Pertencem a alguém da Rua

No terreiro o arraial desfaz-se

Mas fica sempre uma imagem


Os barcos vão lentos

mas velozes vão

junto de ti

meus ternos pensamentos

meus votos de feição


Se não for inédito o autor que não me mate por colocar isto aqui!

Li isto num papel pertencente ao espólio do João Carlos Lagarto da Conceição.

Os colegas da sala de desenho - o Cunha - juntavam todos os seus haveres depois a sua inesperada morte.

Tinha um certo sentido trágico da vida que o fazia pressentir esse fim. E isso transmitia-o constantemente

- Quando os lábios se calam

os olhos falam melhor!

A meio da noite, dando por encontrar uma garrafa de espumante ainda disponível, telefonava a um amigo para acabar com ela. 



-Não sabemos se amanhã estaremos vivos! - Justificava,

Fosse pela premonição. Pelo livre arbítrio (outro dizem que é a sorte ou o destino). Fosse pela coincidência, o certo é que a sua morte e a violência do acidente que a provocou, deixou todos num poço sem fundo.


lopesdareosa

 




domingo, 26 de março de 2023