sábado, 5 de outubro de 2019

Os Caminhos da misericórdia


Dedicatória a Lúcio Amorim de Afife. 

- O Pirilau -  

Um Extraterrestre no meio do triste quotidiano 


A Tua via sacra é o meu  exemplo
Mas perdoa-me  se entro  no  Teu  templo
E não me ajoelho
Doem-me as rótulas do meu entendimento
Para acreditar já me sinto velho
- E a idade? -  Senhor, a  idade
São toneladas em cima dos ossos
E aquele corvo negro não é fatalidade

Grandes, grandes  são os pecados. Os nossos!
E os Teus? – Porquê tanto sofrimento?
Tanta mentira Senhor – e em Teu nome!!!

Perdoa-me se entro no Teu templo
Onde  o peso das pedras é enorme
Mas  não acredito no que ouço
(E não há esmolas para oferecer dentro do meu bolso)

Os  sinos deveriam dobrar só por ti. Não por mim!
Que eu não mereço

No que acredito está nas  palavras que não esqueço
Só tenho medo de não morrer ( já dizia o Lúcio Amorim)
Ser condenado a vaguear como Caím
Contar até ao fim do tempo as contas do meu terço

Mas a Tua via sacra não tem preço
Percorres os caminhos da misericórdia
Mesmo assim
Sem direito a soldo ou piedade

Acompanhar-te-hão os homens de boa vontade
e outros tantos como o Lúcio Amorim.

- Afinal quem se salva nesta selva de enganos?
- Os humanos não! E é isso que somos; apenas humanos.


























Legenda
Salvador Dali, Jim Caviesel,  e São João da Cruz

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Liguei o computador

Também poderia ser sobre a problemática do nó cego existencial decorrente do ser pensante perder tempo com estas modernices da informática


Liguei o computador
                                                                                                                            Mas não me fala de ti

Foi então que percorri

Os carreirinhos da dor

É que o tempo não tem cor

Nem lá vai com anilinas

Nem mesmo com estas rimas

Ou frases com muitas prosas

Esta rimava com rosas

Se o poeta fosse pimba

Se o poeta fosse brega

Mas a verve lá não chega

Não é famoso ainda

Não tem curso ou diploma

Não percebe nada disto

Se anda parece cristo

Se pára logo entra em coma

E se há alguém que o coma

Fraco gosto tem então

Apenas fica a ilusão

Que lhe sobra algum talento

Não ganha nenhum alento

Quem liga o computador.

Quem é o interlocutor?

Que valor tem a conversa??

Quem anda mais que a pressa

Engana-se no atalho

Liguei o computador

Só por isso?

– Nada valho!!



( Esta é mais do Tone do Moleiro Novo que do lopesdareosa. Por causa de um escrito recente um amigo meu perguntou-me quem era o Tone do Moleiro Novo. Qualquer dia ganho ao Pessoa em heterónimos.)

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Louvai o Senhor...

Ouvi agora Senhores a história que vou cantar!                       
E não é a da Naucatrineta!      

                            
Corriam os últimos anos da década de 1990. Já tinha acontecido, em 1996, o primeiro encontro de tocadores de concertina no Forte de Santiago da Barra, patrocinado pelo INATEL e incentivado pela frenética actividade do nosso amigo Augusto de Anha.


Eu, o Augusto e o António Pereira, (conhecido no nosso meio pelo BIFE)  à data dirigente do INATEL, diligenciámos junto ao Bispo a Diocese de Viana, D. José Augusto Martins Fernandes Pedreira ( Para nós e desde os tempos do colégio do Minho - O Padre Pedreira) no sentido de nos ser possível promover a celebração,  em São Domingos, de uma missa acompanhada com música de concertinas.

Argumentámos que a música sacra (tonal) estava ao alcance de ser interpretadas pelos tocadores. Argumentámos que mesmo a música tradicional seria acompanhada cantando textos, devidamente estudados,  integrados na liturgia.


Argumentei eu, nessa altura, que desde que pela primeira vez que tinha ido  à Senhora da Peneda, vinte e cinco anos antes, presenciara os antigos cantadores ao desafio discutirem primeiro se cantavam o profano ou o religioso. Decidindo pelo religioso, tinha ouvido desses cantadores coevos discussões inimagináveis acerca da Criação do Mundo, acerca de Adão e Eva, acerca da Arca de Noé, acerca da vida de Cristo, acerca da circunstância em que Pedro tinha renegado o Messias. E por aí adiante! E que por isso era da tradição aliar os textos sagrados com as cantorias tradicionais.

E o Nosso Bispo Pedreira nem disse que sim nem que não.


 - Que teria de consultar o assessor da diocese para os assuntos da música sacra dado que a concertina não seria um instrumento adequado para tal!

E a autorização não chegou!

Até hoje!

Mas, o Augusto teve uma ideia. 

- Vou falar ao Padre Alípio de Anha. 

E falou.

E o Padre Alípio de Anha ( que Deus e outras almas penadas o tenham) assumiu! 

- Eu vou celebrar uma missa acompanhada ao som das concertinas na Minha Igreja. 


E assim foi. A coisa foi anunciada. Eu tenho em casa o cartaz desse evento mas não sei onde. ( Quando o descobrir publico-o) E a Missa foi celebrada. Estive lá e a gente não coube na Igreja! 
O evento repetiu-se nos anos subsequentes.


Passaram os anos e já neste século, há uma dúzia de anos atrás, levei à Peneda uma senhora inglesa que passara sempre, em 40 anos da sua vida, férias em Afife. Morreu dois ou três anos depois.

Mostrei-lhe a noite da Peneda de 6 para 7 de Setembro em todo o seu esplendor. Vimos  aquelas rodas, imensas e intermináveis, da Cana Verde. Ouvimos o matraquear incessante das castanhetas por cima do som das concertinas. 

No clarear descemos de Lamas de Mouro até ao Cando. Daí a  Vale de Poldras. Pasmou-se com a visão daquelas casas ainda da idade da pedra. Viu a entrada do Palácio da Brejoeira. Contei-lhe que ali era Mazedo a terra do Cantador do Dr. Pedro.

Mas antes, ao cair  da noite, tínhamos assistido ás cerimónias religiosas na Igreja da Peneda. E para surpresa da inglesa, (que não para mim) que falava correctamente português, ouviu do pregador uma invectiva sem dó nem piedade contra os barulhentos tocadores de concertina que invadiam o  terreiro da Peneda, e não tinham qualquer respeito por aquele local sagrado. E manifestou-me a sua incredulidade face àquilo que já conhecia de S. João de Arga. Desculpei a circunstância dizendo-lhe que as coisas eram mesmo assim e não havia nada a fazer!

Passaram anos e já em 2017 desloquei-me à Peneda, no dia  da Romaria, de boleia com o meu amigo José Maria Barroso. 


Na chegada apercebi-me que pelas 21H00 teria lugar no Templo uma cerimónia religiosa da Bênção das Concertinas. E o certo é que o evento foi anunciado nos altifalantes exortando os tocadores presentes na Romaria a assistirem a esse evento. 

Cerca do horário previsto subi o escadório. De concertina ás costas, já cansado, parei a meio da subida e encostei-me ao parapeito de um dos "pátios" e descansei um braço em cima da concertina já pousada no granito. 

Passou por mim um romeiro com a sua concertina e perguntou:

- Então o senhor não vem à bênção das concertinas.

- Não que graças a Deus sou ateu! 

Atirei eu sem pensar, mas reparando que o meu improvisado  interlocutor seguira o seu caminho meio assustado pensando decerto que eu era maluco. E de facto...

Nesse ano, 2017 fiquei cá fora. Não assisti à cerimónia.


Mas no passado mais recente dia 6 de Setembro lá volto eu à Peneda desta vez à boleia do Ernesto Minas, meu primo por encavamento dado ter casado com a Minda do Artilheiro, essa sim minha prima, e na companhia do nosso amigo e conhecido António Viana.

Entrámos no Santuário da Senhora da Peneda um pouco antes da hora da anunciada Bênção das Concertinas. Instado pelos meus acompanhantes e também pelos desconhecidos à volta, que me viram de concertina, integrei-me no grupo dos tocadores que se dirigiram para a frente da cerimónia e na qual acabei por tomar parte. Reconheci no grupo o Ricardo Ferreira  e o Fernando Barros.


E sem que tenha sido essa a minha intenção inicial, acabei por participar numa cerimónia que me emocionou até à raiz dos dedos que  Deus me deu para tocar concertina, entre outras coisas. Chorei em plena igreja! O meu coração recolheu as minhas lágrimas. 
( Dizem que tenho um coração de água. Talvez por isso).

E o que mais me tocou foi a homilia. Os celebrantes invocaram Deus! Invocaram a Senhora da Peneda, esclareceram que afinal quem estava a ser abençoados eram os tocadores e não os instrumentos. E invocaram a Bíblia mais precisamente os Salmos de Salomão.

LOUVAI O SENHOR NO SEU LUGAR SANTO

Louvai-O com o toque de trombetas
Louvai-O com o instrumento de cordas e com harpa
Louvai-O  com o pandeiro e com a dança de roda
Louvai-O com as cordas e com o pífaro
Louvai-O com os címbalos de som melodioso
Louvai-O com os címbalos retumbantes

Toda a coisa que respira - louve ela ao Senhor.
Louvai ao Senhor!

E as concertinas eram instrumentos que respiravam. Justificavam os pontificantes!!!

( E as orvalhadas do hissope também caíram sobre mim e a minha concertina!) 



Meu Deus! Meu Deus! 

Que estava eu a ouvir! 

A ouvir com aquelas orelhas que Deus me deu para ouvir. 

Eram as mesma palavras que eu , em 3 de Fevereiro de 2016, tinha proposto para que se louvasse o Senhor ao som das concertinas.

Ver aqui
https://lopesdareosa.blogspot.com/2016/02/louvai-o-senhor-no-seu-lugar-santo.html

Que agora transcrevo


LOUVAI O SENHOR NO SEU LUGAR SANTO

Louvai-O com o toque de trombetas
Louvai-O com o instrumento de cordas e com harpa
Louvai-O  com o pandeiro e com a dança de roda
Louvai-O com as cordas e com o pífaro
Louvai-O com os címbalos de som melodioso
Louvai-O com os címbalos retumbantes

Toda a coisa que respira - louve ela ao Senhor.
Louvai ao Senhor!

Está escrito nos Salmos - livro da Bíblia sagrada

LOUVAI O SENHOR COM O TOQUE DA CONCERTINA - que é até um instrumento que respira!

Pois é, mas o Padre Fontes, no Barroso, foi proibido pelos ministros, de celebrar a Santa Missa AO SOM DAS CONCERTINAS! ( O`Padre Alípio de Anha é que não esteve com meias medidas!)

Dizem que é um instrumento profano! 

- E o pandeiro e o pífaro de Salomão eram o quê?

- Será que essa gente não conceberá que foi Deus que guiou o Austríaco na sua invenção?

- Será o Órgão um tal instrumento não profano?

Coisa curiosa! Quem inventou o acordeão diatónico foi um construtor de Órgãos!

Foi Deus ou o diabo que guiou a mão do Damiano?

No Órgão foi Deus. 


- Na concertina foi o diabo?

fim da transcrição

Moral da História

Congratulo-me que a Igreja, inadvertidamente ou não, tenha utilizado os mesmos argumentos de um ateu assumido para abençoar as concertinas.

- Mas então a diocese, o bispo e o assessor para a música não sabiam já das escrituras nos idos anos de 90?

- Porque não autorizaram expressamente a realização da tal missa se o sabiam???

Agora há uma dúvida que me assalta.


- Num sei se Deus e a Senhora da Peneda abençoaram as concertinas, ou se foram estas ( os tocadores destas, entenda-se) que obrigaram os Sacerdotes a abençoarem as concertinas, em nome de Deus e da Senhora da Peneda.

ENFIM

Rumemos em adoração à Senhora da Peneda a cada seis de Setembro. 
( Sempre e apesar das Feiras Novas)

Toquemos a concertina agora abençoada.

Dancemos a CANA VERDE que deve ser a tal dança de roda dos Salmos.

Louvemos a Deus

Por minha parte louvo e agradeço a Deus ter iluminado o meu discernimento, permitindo-me decidir ser Ateu! 

Assino-me
António Alves Barros Lopes
Para demonstrar que não estou a brincar como quem brinca com brincadeiras!




domingo, 15 de setembro de 2019

POETAS DA GUARDA

Poetas da Guarda


Na Guarda há um poeta





































             Na Guarda  há mais poetas

























                                            Na Guarda também há Poetas






































            Na Guarda há poetas que nasceram prematuros


            
                    Na Guarda há uma dúzia de Poetas






















Na Guarda há cem Poetas
























na Guarda há mil Poetas




















Na guarda há cinco, dez mil Poetas 

Ver https://www.youtube.com/watch?v=aZd69pnH5RU














Na Guarda ao fim do dia













Na Guarda o mar acalma e Deus pinta





















O texto poderia intitular-se


No Portinho da Guarda

No Portinho da Guarda, quando o dia finda.
O Mar amaina e Deus pinta
Naquela
Tela
Que se ergue
Acima da maresia
Pensem bem se haveria
Na Guarda
Poetas
Se na Guarda não houvesse Poesia.


(As fotografias não identificadas são de Santiago Baz Lomba)

lopesdareosa

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

E que culpa tem Pedro Homem de Mello?

E que culpa tem Pedro Homem de Mello?


Este texto foi publicado no dia de hoje, quinta-feira, 12 de Setembro na A AURORA DO LIMA ( pg. 18). Vou comprar um exemplar e oferecê-lo à Mariana Homem de Mello como desagravo à memória de seu Avô.

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E que culpa tem  Pedro  Homem de Mello???

No passado dia 14 de Agosto tive a oportunidade de participar  na inauguração da exposição de pintura de Mariana Homem de Mello, neta do titular, ali na Fundação Caixa Agrícola, à rua de Aveiro. Em conluio com a Mariana, fui recriar dois textos de Pedro Homem de Mello, CANTAR DO NORTE e O CANTADOR DE MAZEDO, acompanhado pela Amabélia da Cházinha e o Joaquim do Penedo, de Gondarém.

Não necessitando, Mariana, da muleta de seu avô Pedro para se afirmar como pintora, o HAVEMOS DE IR  A VIANA do Poeta, mote para a exposição,  sempre se justificaria.  Mariana pintora,  neta do Poeta,  veio mesmo a Viana, expor a sua obra.

Tive a oportunidade de justificar a nossa presença no evento socorrendo-me da informação sobre o Convento de Cabanas dada por Avelino Ramos Meira na sua Monografia de Afife em 1945. O que me serviu para, ao mesmo tempo, destacar um pormenor que nunca vi tratado antes:

- Viana, toda a região, todos nós tivemos muita sorte em ter tido na nossa convivência  Pedro Homem de Mello. 

Vejamos:

O Convento de Cabanas foi arrematado  pelo General Luiz do Rego aquando do regabofe da venda do espólio dos Frades confiscado pelo liberalismo. Depois passou para a sua filha, D. Maria Emília do Rego. Depois por morte  desta, para o seu segundo Marido, Dr. Tomaz de Aquino Martin da Cruz. Este casou em segundas núpcias com Dona Januária do Nascimento. Esta por sua vez tornou-se, por morte de seu marido, proprietária do convento. Casou com um espanhol que por sua vez também se finou. Dona Januária casou então com João Bezerra, da Casa dos Cortiços em Afife, que por ser o terceiro marido de Dona Januária passou a ser  conhecido por « João III».

Por fim estes últimos venderam, em 1897, o Convento de Cabanas ao Conselheiro Cunha e Pimentel,  de  Provesende, que fora Governador Civil do Porto. Este por sua vez viu a sua Filha D. Maria do Pilar casar com António Homem de Mello de Águeda   ( O Toy companheiro, em Coimbra, de António Nobre e de Alberto Oliveira) que mais tarde passaram a proprietários do Convento.

Este Casal teve quatro filhos entre os quais Pedro Homem de Mello que acabaria por herdar o Convento.

Ou seja Pedro Homem de Melo só aparece  ligado a Afife pela simples razão de seu avô Cunha Pimentel ter adquirido o Convento de Cabanas. Não tivesse o Conselheiro comprado a propriedade muito improvavelmente Pedro Homem de Mello se envolveria com a região como se envolveu.

Nasceria no Porto. Frequentaria Águeda e Provezende. Seria Poeta na mesma. Escreveria o mesmo Povo que Lavas no Rio. Provavelmente não seria o do Rio de Cabanas em Afife. Seria o do Rio Águeda ou de qualquer outro em terras Transmontanas.  Assim o Dr. Pedro aparece em Afife desde os primórdios em que vinha passar os seus tempos livres na propriedade de seu avô em Afife. E se não  fora esse simples facto, teria privado Viana, Areosa, Carreço, Afife, Santa Marta, Montaria, Dem, Serra d’Arga, Peneda … da companhia, partilha  e envolvimento de Dr. Pedro com a nossa gente. E de todo o testemunho poético legado, consequente desse convívio.

Não chegaria a Gondarém onde encontrou o motivo das cantorias da minha intervenção que não são afinal nada mais que a recriação do que o Poeta cantara com os cinco de Gondarém; Tio Benigno, Cândida do Guilhadas, Leandro do Milé, Artemisa do Penedo e o  Patêgo, gravado num 45 rotações da Alvorada por volta de 1965. Acompanhado eu agora pelo sobrinho da Artemiza, Joaquim do Penedo, e sua esposa Amabélia que por sua vez fizera as vozes de um segundo disco, dos de Gondarém, que Pedro Homem de Mello promoveu já nos anos 70 (salvo erro).

Pela visibilidade que Dr. Pedro deu ao Alto Minho, esta região muito deve àquele que era tido como uma figura patusca e cintilante com a “mania de exacerbar” com o seu vozeirão, a alma de  um povo que na tese de um certo  antropólogo, apenas existiu no delírio do Poeta. A minha é precisamente o contrário. Esse tal povo existiria sempre, quer Pedro chegasse cá, ou não.  Sorte  tivemos nós, em ter por cá Pedro Homem de Mello que, pela conjugação da vida com a compra de uma propriedade, conviveu com um povo que, e com quem, tanto cantou!

Bem, mas as coisas não são bem assim como as contei até aqui.

O historiador Antunes de Abreu nos seus Ensaios III para a História de Viana (Edição da Câmara Municipal de Viana do Castelo em 2007) e reportando-se a um escrito seu de 1994, informa na página 384:

“Mas Pedro Homem de Melo foi um apaixonado por Viana do Castelo, desde  que aí viu o sol brincando até ao momento em que se punha. Fixando-se em Cabanas, Afife, gastou o verão de 1939 a decorar poeticamente o convento abandonado que comprou e onde se fixou!”     (sublinhado meu)

- Então em que é que ficamos???

– Foi Pedro Homem de Melo que comprou a Quinta de Cabanas???

Mas os factos, muito bem relatados por Avelino Ramos Meira, são de tal maneira resplandecentes, que nem admitem qualquer especulação interpretativa. 

E por isso nem sequer é necessária o contributo, do badamerdas do Tone do Moleiro Novo, para esclarecer o assunto!!!

Lopesdareosa,  Setembro  de 2019

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NOTA DE RODAPÉ

Serve este texto  também de desagravo à memória do Augusto "de Cabanas", durante tantos anos feitor  da Quinta e também ás "da Pôça".  Com especial referência à Dinora, ainda viva e sua Irmã Ilda  a quem Pedro Homem de Mello, como epitáfio, dedicou o mais comovente texto que alguma vez li na Língua Portuguesa. 

Como os seus antecessores, de tanto que trabalharam naquela Quinta, não mereciam que alguém dissesse que estava abandonada quando chegou ás mãos do Dr. Pedro ou mesmo depois.

Setembro de 2019
Tone do Moleiro Novo


domingo, 8 de setembro de 2019

O GESTO

O GESTO!

Fui a São João d'Arga


O meu amigo Abílio Persina conseguiu uma série de imagens diria quase irreais. Entre as quais esta da nossa esquerda. Teria muito gosto que  não ficasse no anonimato.


Não me sai da cabeça aquela outra, que decerto Teófilo Rego conseguiu para Pedro Homem de Mello, de uma mulher de Guimarães e da sua atitude.

A semelhança do gesto é, no mínimo, notável. Também peço que alguém de Guimarães identifique esta Senhora.















Enviei isto à Mariana Homem De Mello que disse parecer-lhe mesmo que seria  a mesma pessoa!

- Poderá ser filha?..  (Perguntou)

Respondi-lhe que seria uma agulha no palheiro do universo! 

Uma era de Guimarães por volta de 1960. Outra tinha sido há oito dias em Sao João!

Da mesma forma Adelaide Graça comentou que lhe parecia a mesma pessoa em tempos diferentes.


Retorqui, que perdia o meu tempo a contemplar estas imagens. E que havia uma coisa que eu, Antonio Alves Barros Lopes, para além, lhes encontrava  em comum. 

- A Alma.

(A Adelaide concordou)

A Alma de um Povo que Pedro Homem de Mello sempre procurou e tantas vezes encontrou.             ( sessenta anos antes de nós!)

lopesdareosa

sábado, 31 de agosto de 2019

A que me sabem os dióspiros

Meus senhores:


Isto é um exercício pouco recomendável, escabroso, quiçá fedorento, violento, fruto de um espírito retorcido que, para desgosto da intelectualidade, nasceu pobre, por cima de um eido e em cima de bacas galegas. Mais tarde passou a dormir em cima de holandesas. E a porta do forno lá de casa era calafetada com bósta. Habituado ao cantar dos galos pela madrugada, ao cheiro das bacas e do estrume dá-se, por isso, muito bem no meio dos burgueses, daqueles que deitam um cheiro muito semelhante ao da jorda.  

Só o incomoda o cheiro, quando certos urbanóides usam perfume!

Mas não se queixa! 

Nem pode! 

- A justiça não admite queixas contra o mau cheiro do perfume. 

- A justiça só admite queixas contra o cheiro das vacas, o cheiro do estrume e os galos que cantam de madrugada!

Azar dos intelectuais, o gajo estudou, mas não perdeu o seu lado paleolítico. 

E resolveu não se deixar colonizar. 

Resolveu, fazer cócigas (isso mesmo) à intelectualidade! 

E como prova da sua erudição desafiante aí vai uma, muito pequena, lista dos seus contactos por esse mundo fora. ( Fôra ou Fóra???)


De Alberto Caeiro - (Fernando Pessoa)

Deito-me ao comprido na erva.

Deito-me ao comprido na erva.
E esqueço do quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava.

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de Miguel Torga

PRECE 

Senhor, deito-me na cama 
Coberto de sofrimento; 
E a todo o comprimento 
Sou sete palmos de lama: 
Sete palmos de excremento 
Da terra-mãe que me chama 
Senhor, ergo-me do fim 
Desta minha condição: 
Onde era sim, digo não, 
Onde era não, digo sim; 
Mas não calo a voz do chão 
Que grita dentro de mim. 
Senhor, acaba comigo 
Antes do dia marcado; 
Um golpe bem acertado, 
O tiro dum inimigo ... 
Qualquer pretexto tirado 
Dos sarcasmos que te digo.


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de Ana Wiesenberger

Deito-me na cama vazia 

Deito-me na cama vazia
E entrego-me ao silêncio
Não há ecos
Não há sombras
Não há braços, nem pernas
À espera de mim

O meu corpo molda-se aos lençóis
E enrola-se no sonho
Na maresia do desejo de te ter
De te encontrar
Aqui na penumbra do meu quarto
No sossego das minhas vozes
Na tempestade do meu ser
Sedento de ti

Abro os sentidos em mim
Devagarinho, como quem abre
Uma porta antiga, selada de tempo
E deixo-te entrar
Sorrateiro e imponente
Na tua dimensão emprestada
À minha fantasia

Sinto o teu peso sobre mim
A deslizar num movimento febril
E o teu rosto indistinto de sépia
Numa moldura de outro século
Liberta-me em espasmos doloridos
Resgata-me da minha solidão
Para me levar contigo

O Amor franqueia todas as cancelas
A eternidade é o momento

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Em Salmos 4:8

Em paz me deito e logo pego no sono, porque, Senhor, só tu me fazes repousar seguro.

Deito-me em paz e logo pego no sono, porque, mulher, só tu me fazes repousar tranquilo.



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Com tal distinta companhia

Do Tone do Moleiro Novo


A que me sabem os dióspiros



Deito-me na cama
na noite um suspiro
teu fruto é banana 
o meu dióspiro


Deito-me na cama

Num gesto
Comovente 
e um gesto
 conivente
fez ausente
a inibição
concomitantemente
Quem cala consente
e o furacão 
saliente
aspirante premente
semovente
leva à sedição
Deito-me no chão
ou em qualquer lado
e mesmo de lado
ou olhando o céu
através do telhado
deito-me ao léu
ou mesmo protegido
de camisa vestido 
da chuva e do vento
deito-me dentro
das mantas do sonho
dessa forma inconho
a da bananeira
maçã de fruteira 
nesse dióspiro
fruto proibido
fruto preferido
até no delírio
ultimo suspiro
deito-me no mar 
do nosso pomar
doce dióspiro


Deusa Pomona

Minha culatrona
por tua causa 
tomo sofalcona

Tenho outra versão que começa assim:

GRÃO  DE  BACA... 

Mas não é para aqui chamada.

E, meus amigos! 

- Nem que o dos cópos se juntasse ao zarolho e ao ratinho,    conseguiriam uma obra de arte desta natureza. 

Talvez com a ajuda do de Bensafrim

O Irlandês iria lá.

Ou seja um répe sofisticado ao estilo do Quim Barreiros!

Tone do Moleiro Novo