sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

LENGA LENGA AO JANTAR

Pela boca que é a minha
Morre o peixe que é sardinha
Que ás vezes é lucinha
(outras vezes bacalhau
daquele pescado à linha)
Raras vezes é taínha
Misturada com farinha
De milho, trigo, centeio e polinha
Na sertã bem fritadinha
Pois só se mata galinha;
se houver festa da Santinha
Quando o dono tem morrinha
Quando esta tem a galinha
Ou o bicho é da vizinha

E ao cair da noitinha
Avô, Avó, Pai, Mãe e Madrinha
Mais a minha irmã Carminda
Vão rezando a ladaínha
Padre Nosso Salvé Raínha


E o Prior que é fuínha
Assustou a andorinha
Na Páscoa de manhãzinha
Ao tocar a campainha
Por estas Terras de Vinha
Na passagem pr'a Caminha
A toupeira e a doninha
Lavraram o Campo da Linha
Onde os pinheiros dão pruma
E as oliveiras não dão azeitonas
Porque a imaginação já andava longe da Cozinha

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

SANTA COMPAÑA, ESTADEA, PROCISSÃO DE DEFUNTOS

Encontrei a palavra Estadeia  num texto sagrado da nossa Maria Manuela Couto Viana  O ROMANCE DO RAPAZ DE VELUDO no verso “Quando o vulto da Estadeia se ergueu das bandas da Espanha”
Não sabendo identificar a tal Estadeia socorri-me dos nossos amigos galegos para chegar à conclusão que se tratava da Estadea ou Santa Compaña. Ou seja, aquilo a que chamamos de Procissão dos Defuntos ou das almas penadas que vagueavam no mundo à espera de que alguém, rezando por elas, as ajudassem a transpor as portas do Purgatório na sua viagem para o Céu, que sendo inatingível obrigaria essas tal almas a deambular por este mundo metendo medo aos cristãos, pelas encruzilhadas, em noites de breu e tormenta.
Ora acontece que por Bula Papal o Purgatório boi abolido. E por cá, na Galiza da margem esquerda do Minho, ninguém deu por ela nem pelas benéficas e maléficas consequências que isso nos trouxe. Mas já no outro lado e porque os Galegos, da margem direita do Minho, preservam as tradições, isso representou um alívio imenso para quem, de noite, era obrigado a cruzar caminhos e enfrentar as sombras de veredas mal iluminadas. No entanto teve o seu lado negativo. É que essas mesmas almas penadas costumavam fazer umas despesitas nas tascas do reino e também contribuíam para engrossar os votantes em tempos de eleições.
E foi assim que assinalando o sucesso, um colaborador do FARO DE VIGO, de seu nome ANXEL VENCE se referiu num texto publicado em 17 de Janeiro deste ano e que passo a publicar a tradução devidamente autorizada.
ESTADEA - GRAFITTI  EN  PONTEVEDRA
Datei:Santa Compaña Pontevedra 01-01b.jpg 










CRÓNICAS GALANTES por Anxel Vence 

“ FICA  ABOLIDA  A  SANTA  CAMPAÑA”
Provavelmente sem o querer, o Papa acabou de determinar o fim da Santa Compaña que tão bons serviços rendeu aos galegos durante os últimos séculos. Benedito XVI aboliu o Purgatório, retirando assim da circulação as almas penadas que até agora fatigavam cada noite os caminhos deste reino para aliviar a suas angústias nos bares "golfos" da madrugada.  As pré-reformas nem sequer respeitam as almas atormentadas pelo que se vê.
Assegura o Santo Padre que o Purgatório não é exactamente um lugar que possa ser procurado nos mapas ou no Google Earth, mas sim um “fogo interior” destinado a purificar os pecadores que não tivessem conseguido entrada directa no Paraíso. Acabou-se portanto a festa. Uma vez eliminado esse centro de expiação e recolocados os seus inquilinos no Céu –  ou  seja lá onde for – o lógico é que a alegre confraria da Santa Compaña deixa de amenizar as noites da Galiza com sua procissão de túnicas brancas e seus escalafriantes  alaridos.
O encerramento da Estadea por decreto pontifício é uma péssima notícia para os Galegos em geral e para a hotelaria em particular. Desaparece com ela – e com o Purgatório em que se alojavam as suas almas - um dos principais atractivos turísticos da Galiza, ademais um símbolo étnico comparável em popularidade com o Apóstolo, com o Românico Galego, as navalheiras e o tabaco rubio de contrabando. Mas também os proprietários dos bares lhe vão sentir a falta, agora que a lei anti-tabaco lhes aperta as caravelhas das caixas registadoras. Muito menos tristonho do que sugere o tópico, Galiza é um país no qual até os defuntos são gente dada a passar a noite e andar por aí nos copos quando o guarda do cemitério finaliza a sua jornada laboral. A afeição das almas ao vinho está documentada entre outros por Álvaro Cunqueiro (Antigo Director do FARO DE VIGO), que era um perito em anjos, em almas penadas e demais seres do Mais Além que seguem aparecendo por Mais Aquém. Cunqueiro deu no FARO DE VIGO notícia periodística da visita que, vinte e oito almas do Purgatório reunidas em santa e alegre compaña, fizeram a uma certa taberna de Mondoñedo. Contava o Mestre que ali, na de “Póngalas”, os visitantes da ultratumba atiraram ao gasganete quatro rodadas de vinho ribeiro servidas por um aterrorizado dono que não se atreveu a passar-lhes a conta. Não seria por falta de dinheiro, desde logo. Os Galegos que são gente pródiga com os defuntos, nunca deixaram de contribuir para o sustento da Santa Compaña.
Para isso foram colocadas “as Alminhas”  onde os vivos podem deixar uma esmola de forma a que ás almas penadas não lhes falte uns cêntimos para gastar na taberna.
Mantidas por esta curiosa variante de subscrição popular, as alminhas sempre foram na Galiza gente de casa a que incluso se lhes  respeitava o direito de sufrágio em dia de eleições. Na América sobretudo. É sabido que, não há muito tempo, os recaudadores de votos, ajudavam os cadáveres dos emigrantes a sair das campas cada vez que chegavam os comícios. Com grande espírito cívico as almas abandonavam durante algumas horas o sepulcro e uma vez exercido o direito de voto, voltavam à sua residência habitual no campo santo.
Quer dizer que os mortos andantes da Santa Compaña são uma parte mui viva dos costumes deste país e inclusivamente contribuem – com seus módicos consumos – a melhorar a economia da hotelaria e o número de votos dos partidos.
Toda esta rima de tradições poderá agora vir abaixo com a derrogação do Purgatório que dava alojamento ás almas em seu penar rumo ao Céu. Desalojadas de sua casa, como vulgares okupas, ás almas não lhes quedará outra coisa senão renunciar aos seus habituais passeios nocturnos, aos seus  vinhos, suas chachadas com a vizinhança.
Apenas lhes resta o “fogo interior”, apesar de que não seja certo que o Papa tenha aludido à aguardente”
FIM DO TEXTO

ALMINHAS

Alminhas do Serrado

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O MEU AVÔ LAVRADOR

JERÓNIMO AFONSO PEIXE
(O meu avô lavrador)
Morreu honesto mas pobre. Morreu pobre mas honesto. Como queiram.
Consequência do Priscilianismo remanescente das terras galaico-durienses com que fora educado. Teria que ser pobre por ser honesto.

O meu avô lavrador
subiu este monte ao mato
e dessa vida tão dura
deve ter ficado farto

- De fome teve fartura

De chancas e luvas grossas
roçou mato nas encostas
e nas chãos com dores nas costas
à enchada e à foucinha
da Rompensa à Fragalhinha
comendo brôa e sardinha
dividida por mais quatro

Deve ter ficado farto
o meu avô lavrador
desse trabalho tão duro
de cortar no monte mato

Deixou de ser estucador
encostou a régua ao muro

Deixou o branco do gesso
pelo negro do estrume
pagou na vida alto preço
e como era de costume
subiu este monte ao mato

Deve ter ficado farto
Pois o mato é coisa dura
não se corta com sardinha
de fome teve fartura
e deve ter ficado farto

Na curva d’ápertadinha
onde ouviu piar o gaio
virou um carro de mato
no alto calor de Maio

Buscou sombra não a teve
e bebeu na Fonte Seca
quando quis matar a sede

- Djió me cago em la punheta!

Dizia desesperado
quando algo corria mal
tinha aprendido este fado
em terras de Portugal,
na Galiza aqui ao lado
C’os galegos - gente estranha
que com os outros da Espanha
se cagam na Puta Madre

E voltava ao fim da tarde
com a família à noitinha
ao chegar a casa tinha
de conduto e sem presigo
caldo de unto p’ra jantar
na lareira da cozinha
(como se fosse castigo)

Mesmo assim ia falar,
terço na mão, ao Senhor
e rezando agradecia
aquilo que ao lavrador
tocava ao fim de um dia
igual ao anterior

E não sei se adormecia
se ao alto a noite inteira
não esquecia a canseira
do que tinha pra fazer
logo ao amanhecer
dum outro dia igual
de trabalhos para vencer
num estepôr de vida dura
que se levava afinal
em tempos de ditadura
no Minho de Portugal

- De fome havia fartura!

Rosa Alves do Couto da Casa do Manel Parente
Jerónimo Afonso Peixe da Casa do Moleiro

O MEU PAI


“Aquela madrugada que
Viu lágrimas correrem no teu rosto
De alegre se fez triste como se                                   
Chovesse de repente em pleno Agosto”

 (Manuel Alegre – in  O CANTO E AS ARMAS)





Deve ter sido num dia assim que meu Pai partiu para a França. Não assisti. Estava na tropa. Ou no Porto. Ou em Lisboa. Ou em qualquer outro sítio. Não me lembro, nem me quero lembrar.
A sua fotografia nos seus trinta anos na quinta dos Brasileiros numa das festas que o Senhor Oliveira, o Manquitó, dava na sua chegada a Areosa. Ao seu lado a Luzia, mãe do Zé Oliveira Carvalho, Brasileiro Português de Areosa, que nasceu no mesmo ano que eu, no Porto e que aos três anos foi para o Brasil mas nunca deixou de ser português. Por cima estão o Sr. Morais da Casa do Léro ( se não me engano!) e o Senhor Ernesto Mina, este encostado ao gradeamento, que não é mais nem menos que o pai de João, do Necas, da São, da Irene, do Ernesto, e da Fernanda e que morreu aos quarenta do auge da sua vida!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

PEDRO HOMEM DE MELLO

PEDRO HOMEM DE MELLO


6 de Março de 1984, Terça-feira de Entrudo. As máscaras não se juntaram no largo de Oliveira.

 " - Não quero morrer mais cedo
         Não quero morrer mais tarde
    - Mas quero morrer um dia...
        No meio da claridade
        Daquele tão triste dia
        Grande, Grande era a cidade
        E ninguém me conhecia "

" Quisera voltar ao bosque
   Onde sei que sou lembrado
   Voltar às leiras de Afife "
                                      
E Afife toda estava lá. No Largo do Casino. Não vierem da “imensa aldeia” os saloios. Não! Apenas o povo que sempre lavou no Rio de Cabanas, que vai ás feiras de Ponte e ás tendas de S. João d'Arga e que talhou durante anos e anos a tumba do Poeta.

                                                               - Que é da Custódia da Fonte?
                                                                - Que é da Ofélia das Caxenas?

... e , no derradeiro apelo do Poeta, também estava a Amália. Esta cantou o Poeta. Aquelas o Poeta as cantou.

Afife, sempre Afife!
                                                                   
"Era aqui, aqui sòmente                                                                                                                                                                                            
  que eu deveria ter ficado.
 Afife de toda a gente
que canta e dança a meu lado”

A poesia, sempre a poesia daquele agora mais perto que sempre

                                    da Ilda Gomes
                                         da Rosinha da Mica
                                             da Maria de Cabanas
                                                  da Octávia das Pintas
                                                     do Raúl

Ali onde as sombras da alameda só bolem quando há luar!

                           “Enterrem os meus ossos em Afife”


Afife, sempre Afife! Até nas últimas vontades do Poeta!
Afife que lhe prestou a ultima homenagem em Vida e a primeira na Morte  (... ou a primeira em Vida e a última na Morte? )




















Nota final.

Schenhor Lopes ( Ela falava axim)  .... morreu o meu amigo – Disse-me a Ofélia das Caxenas.

- Quem!? Eu!? Senhor!? À Sua beira!?


( Texto Publicado na A AURORA DO LIMA em Março de 1985)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

SANTO ANTÓNIO DE AREOSA

Sozinho fica o António

Descalço e de bibe sujo
Com seus olhos de marujo

A olhar para além do muro
A salvo do gesto impuro

E das tentações do demónio
Sozinho fica o António

Fechado mas não seguro

À MINHA  IRMà CARMINDA









































- Lê Minda, lê!

E ficava à espera da chegada da irmã. Vinha da escola e já sabia ler. E ler era o abrir os livros, o ouvir da boca da irmã os sons que sabia existirem naquelas figuras estranhas por debaixo dos bonecos. Mas só a irmã é que detinha o poder, a magia e o segredo de transformar em palavras os sons que sabia estarem escondidos naquelas linhas dos livros.

- Lê, Minda, lê!

FOTOGRAFIA DOS TEMPOS DAS PARADAS NAS FESTAS D'AGONIA

Da nossa esquerda para a direita. A Zia do Pinheiro, a Irene do Ribeiro, a Carminda do Moleiro Novo, a Sara dabeira do Zé do Coura, a São do Bispo, a Aurora da Seixas e a Lila do Fusco. Se não for assim eu corrijo!

A MINHA NAI

Carminda Alves Peixe

- A minha vida dava um romance. Fiz de tudo. De esposa, de mãe, de irmã, de    avó.  Sei   lá! O que eu passei! Se eu soubesse escrevia um livro!

Quem disse estas frases corriqueiras foi a minha mãe numa tarde de Domingo.
E olhei para aquela lavradeira de oitenta anos com a quarta classe e em quem nunca reparei verdadeiramente.
E empenhei uns instantes a olhar para aquela mulher. Realmente nunca reparei nela deveras. Na minha vida, tendo-a até hoje visto todos os dias, passa como entendo serem os anjos da guarda - existem mas não se dá por ela!
Não precisaria de saber ler ou de escrever.
O Seu Livro já estava escrito no meu coração! Nunca será publicado.
Na fotografia a Carminda do Moleiro Novo, por volta de 1939, com o seu fato novo no ano em que foi mordoma nas Festas de Vinha. O portão ainda existe. É o portão da então Quinta da Nena que depois passou a Albergue e que agora é pertença da APPACDM. Por detrás e dentro no meio do jardim, existia uma cascata com um rapaz em barro a arrebitar para a taça e a que eu achava muita graça.
O fato foi-lhe oferecido pela minha avó Rosa, sua mãe. A saia e o avental foram feitos por uma tecedeira de Perre chamada a FELIZQUENTA. A Algibeira o Colete e a Camisa foram feitos pela Palmira do Valença. Os lenços e a Bolsa foram comprados numa casa chamada A LAVRADEIRA em frente ao rio e ao lado do Depósito das Fazendas.
Um detalhe aos Folcloristas e a outros entendidos.Reparem na bolsa que minha mãe usava na mão direita. Não era nenhuma invenção para turista ver. Era moda de então. Era mesmo assim!