domingo, 26 de dezembro de 2010

AO RUI BARROS DE AFIFE

 O RUI BARROS

Com quem compartilhei alguns pedaços da minha  adolescência.
Fazia observações que deixavam a minha incompreensão atrapalhada.
Mais tarde apercebi-me da gravidade da situação que desde há muito  germinava.
O Rui passou-se para o outro lado de si mesmo. 
Para o outro lado de todos nós.
Quem se lembra  das gravações antigas do Rancho de Afife  tem ainda nos ouvidos a canção do  Rui.

       Meu coração anda triste
           porque foi abandonado
               É triste, meu Deus é triste
                   Amar e não ser amado

Ao que os companheiros respondiam no desenleio dos tempos despreocupados.

                        - Chora! Chora!
                                 E a mim que se me dá!

                                    - Ó tim tim ora vira vira!
   
                                         - Ó tim tim ora vira lá

Ironia das ironias. Na tragédia, nem os coros gregos conseguiriam melhor!



Em cima, na Senhora da Cabeça, em Freixieiro, nos finais dos anos sessenta. Encostado ao    pinheiro, o Aires da Mariana. À sua direita o Rui Barros. Na frente o Matias de Âncora ou seja, o Vasco da Sereia. O outro, eu, que era assim e já tinha dificuldade em respirar pelo nariz.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

MARIA MANUELA COUTO VIANA

Transcrevo aquí o ROMANCE DO RAPAZ DE VELUDO no qual Maria Manuela Couto Viana se despede, numa última e derradeira visita à sua terra e ás suas gentes.


ROMANCE  DO  RAPAZ  DE  VELUDO

 de Maria Manuela Couto Viana

"O mar de Afife levou-o
  E trouxe-o de volta à praia.
Foram três dias de argaço,
Três noites de verde raiva.
  Quando o vulto da Estadeia
Se ergueu das bandas de Espanha,
            O vento espalhou a angústia
         E a lua escondeu a cara.
         Em sudário de crespelho
(Cor de sangue e viva brasa)
Jaz o rapaz de veludo
À espera da madrugada.
Sobre o olhar ambarino
Cortinas de longa franja;
Sua boca é uma ferida,
Amarga flor de genciana
- Flor da Senhora das Neves
A da Sagrada Montanha;
Sobre o seu peito redondo
Fio e coração de prata;
O cabelo é palha milha,
Folhelho na desfolhada.
A onda que o embalou
Aconchegado nas algas
Deu-lhe ao corpo de veludo
Um movimento de dança:
A gota de Gondarém
Ou Verde-Gaio de Armada.
Todo o seu corpo macio
Rebrilha como uma chama
Ou espelho de aço fino
Frente ao Sol que se alevanta
Quem vela e chora esse corpo?
Quem o beija? Quem o canta?
Quem é que o acaricia,
Quem sofregamente o enlaça?
Que vulto o círculo mágico
Silenciosamente traça?
Poetas do mar  de Afife
E fandangueiros das Argas,
Boieiras da verde veiga,
Resineiros da Estorranha,
De meio-lenço amarelo,
Cachené cor de laranja
E o avental vermelho
Com a saia de vergastada.
Por isso grito: - Presente!
Como poeta e amada,
Poeta dos mares de Afife,
Amante das noites claras,
A sombra da sua sombra,
A alma da sua alma,
O eco do seu gemido,
O lençol da sua cama.
Viva-morta em mortos-vivos
A responder à chamada
Com o grito da Pieira
De lobos na noite trágica.
Frementes, meus pés desnudos
Pedem terreiro de dança.
Abraçado à concertina,
O Marco Rocha comanda.
Cantava a encomendação
Deolinda da Castelhana,
Enquanto com seus cabelos
Enxugava as minhas lágrimas


E vi que o Nelson de Covas
Já tinha a madeixa branca
                          E que o bailador perdera
A sua estranha arrogância;
Que era de velhos e mortos
Essa velada macabra.
Só o rapaz de veludo
Tinha sua face intacta
Brilhando no amanhecer
Como concha nacarada.
Fugi gritando nas brumas,
Nas dunas de areia branca.
Em leito de camarinhas
Acordei na manhã alta.
Ai, o rapaz de veludo
Minha noite de Ameaça
O meu punhal de ciúme,
Só não sei se foi o mar,
Se fui eu que o matara"

Toda a Serra d'Arga está aqui. De Cerveira a Ponte de Lima e mais além até S. Lourenço no Beiral. De Gondarém ao Cerquido. Todo o Mar de Afife está aquí. Todas as pedras do mar de Afife estão aqui. Desde Camposancos até Viana. Todos os rapazes de veludo que são exactamente os mesmos do cravo na boca de que fala o Dr. Pedro na sua dedicatória ao Vilarinho.  O Vale de Âncora. As idas a S. João. Espantar da Senhora Deolinda da Castelhana. As Chascas de Trazancora e a Procissão de Defuntos. Dem, Terras da Montaria. Marcos Rocha que morreu de morte matada.  Maria Manuela Couto Viana ainda deu conta que o tempo tinha passado e que a madeixa do Nelson já era branca e que já tinha perdido aquele jeito desafiador. Todos os herois da obra de Dr. Pedro se encontram aqui. Gente que passaria anónima na vida sem saber porque a vivia não fora o lirismo dos poetas nisso reparar. Elevação essa tantas vezes repartida com Maria Manuela Couto Viana nas mais variadas manifestações. Na poesia, nas récitas. Eu próprio a vi, vestida de Azul, dizendo os versos MINHA TERRA É VIANA na Praça de Argaçosa na apresentação de um Festival da Meadela.
Este Romance do Rapaz de Veludo,  poema um tanto ou quanto enigmático, dificilmente será entendido por quem não nasceu nem frequentou neste e este  pedaço do Alto Minho. Muito menos por aqueles que defendem, em tese, que o Povo a que o Dr. Pedro se referia nunca existiu!
 
Nota em 26 de Agosto de 2016.
Reli este texto e nele encontrei uma falha grave. Por omissão!
O rapaz de veludo poderia também ser  Francisco Enes Pereira, do Lugar de Montedor, que o sudário de crespelho do mar dos  Açores envolveu. Afogado. A quem o Doutor Pedro dedicou um texto que intitulou simplesmente FRANCISCO!
 
lopesdareosa

ENTRONCAMENTO. História da vianeta ferroviária

Nos finais dos anos oitenta, no verão, passava umas temporadas no Fundão.
Mais precisamente em Castelo Novo. Nada de mal não fora o facto daquilo na Beira Baixa, nessa época do ano, ser o que para mim seria o cenário de um anúncio ao inferno.
Para mim, minhoto tiritante, era calor de mais e um dia resolvi encurtar as férias e regressar tomando o comboio da Beira Baixa até ao Entroncamento.
Cheguei à cidade fantasma, como eu lhe chamava  (dado que por essas alturas chegava lá pelas seis da manhã), dos tempos do Regimento de Páraquedistas em Tancos, ás nove e tal da tarde. Tinha que esperar pelo comboio vindo de Lisboa para seguir para norte e, como o calor continuava, nada me apetecia comer. Até que acabei por me sentar numa esplanada de um Café-Bar que tinha um cartaz aos gelados Olá a dizer que havia vianeta. Achei a boa a ideia e pedi uma vianeta à miúda que me veio atender.
Estranhei a demora até à surpresa de me trazerem, em primeiro lugar, um talher completo. Prato, faca, garfo e colher. Depois veio a travessa com uma vianeta  descascada. Inteira!
Não me dei por achado, nem por cobarde, até porque estavam uns pândegos a beber cerveja e a comer tremoços na mesa ao lado que decerto não teriam ficado menos surpreendidos que eu. E resolvi dar uma de forte face aos olhares divertidos que eles deitavam à minha mesa e aos comentários que adivinhava estarem a ser feitos acerca da situação. Assim comecei a desfrutar da minha vianeta.
Comi! Comi! Comi! Até que o calor foi mais veloz que a minha vontade e acabou por derreter o resto da vianeta ainda antes de eu a ter acabado. É evidente que depois de cerca de meia hora a lutar com a vianeta fiquei enjoado e cheio de sede com aquele sabor doce ás natas e chocolate. Quem gozava com a paisagem eram os meus amigos da cerveja!
Até que chegou a hora de pagar a conta. Foram duzentos escudos o que não foi mau negócio pois foi por atacado. Se fosse ás fatias teria pago muito mais! Dei uma nota de mil à miúda e esperei pelo troco. Quem me veio dar o troco foi uma senhora de mais idade possivelmente dona do Café. Sempre como se nada de anormal tivesse acontecido e já com o troco na mão acabei por dizer à senhora.

- Minha senhora! Lá comer como eu! Mas que a minha fama tinha chegado ao   Entroncamento é  que eu não sabia!

A Senhora ficou presa ao dito e lá alinhavou.

- O senhor é que pediu!

- Da mesma forma como tenho pedido em muitos outros lugares.
  O que nunca me serviram foi uma  vianeta inteira!

Bem! Os meus amigos da cerveja, que já tinham uma dúzia delas abatida, rebolaram-se nas cadeiras com as gargalhadas que deram. Tiveram tanta pena de mim que me convidaram para beber uma cerveja. Desculpei-me que tinha que apanhar o comboio e fui dali a outro café beber uma garrafa de água gelada. Para cortar!
Passei o resto da viagem a pensar na cena. Eu! Sozinho!! No Entroncamento!!! A comer uma vianeta inteira!!!!

- Só a mim!!!!!
E que seria uma boa história para contar aos amigos.
De facto! Assim tem acontecido.

Tone do Moleiro Novo

NOTA
Já repararam que a autoria vai variando com os acontecimentos?
O Fernando Pessoa tinha heterónimos, cada um com identidade própria, que iam interpretando a realidade segundo ideossincrasias perfeitamente individualizadas e personalizadas pelo autor.
Aqui tratam-se de heterónimos ao avesso. Ou seja, aqui o ortónimo são os acontecimentos que vão definindo a qual de mim é que são dirigidos.
Difícil entender?
Por exemplo:
- Quando uma mulher afirma que morre por mim, é ao Tone Lopes lorpa que o garante.
- Quando minha mãe me diz alguma coisa é ao António inteligente que se dirige.
-  Quando o Cavaco Silva fala à nação, o cidadão Barros Lopes passa a burro.
- Quando toca a pagar os impostos, tanto faz que seja o Tone Lopes lorpa ou o Barros Lopes burro!
Não sei se estão a ver a coisa!
Assim, António Alves Barros Lopes, Lopesdareosa, Barros Lopes, Alves Barros (como sou conhecido na Catalunha e País Basco), Tone Lopes, Tone do Moleiro Novo, ou simplesmente o António ou o Lopes, são a mesma pessoa. Depende das circunstâncias. O Tone do Moleiro Novo é quando me acontecem  situações como o do Entroncamento!
( Sem qualquer ofensa para as suas gentes tanto menos que, na ocasião, os presentes, vieram piedosamente em meu socorro)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

NATAL

( Eu lembro-me de que)

Eu sou do tempo em que velhos eram os outros. Agora já posso dizer que sou do tempo em que o Natal era verdade. Do tempo em que a cristandade não tinha trocado o Menino Jesus pela Coca Cola. Do tempo em que as chaminés eram suficientemente largas para o Menino Jesus pudesse descer. Do tempo em que se espalhavam estratègicamente botas, sapatos e chancas pela lareira à espera que no  dia seguinte ao da Ceia aparecesse alguma coisa lá dentro. Agora concordo que é difícil o entendimento de que o Menino Jesus (muito menos o Pai Natal) consiga passar pelas redes dos filtros dos exaustores! Para entender tal coisa seria necessário pensar muito e isso não é coisa para estes dias. Já está tudo nos computadores e na Net.
Mas no meu tempo o Menino Jesus era verdade! Tão verdade que até o beijávamos na Igreja. Tão verdade que um ano, deixou uma grande penca nas chancas de ir ao mato que a minha madrinha tinha posto na lareira.
Tão verdade que um ano deixou uma ceia completa na sala de jantar da Casa do Bem-te-Ví e da Maria da Lifonsa. Couves roubadas na veiga de Areosa, bacalhau e azeite do Perrito, batatas do Moleiro Novo, vinho da Labruja, broa de Afife e por aí fora.
E como aquele bacalhau, aquelas batatas, aquelas couves, aquele azeite, eram diferentes naquela noite com toda a gente à volta da mesa! quando afinal eram bacalhau, batatas, couves, azeite iguais ao do resto do ano, vindos exactamente da mesma veiga, do mesmo mar e da mesma venda de sempre.
Do Natal e só do Natal, eram os pinhões, as nozes, as avelãs, os figos secos e as rabanadas.
Bem, a celebração repetia-se na noite de passagem de ano e na noite de Reis que, de uma forma surpreendente, coincidia com a altura em que na Igreja de Areosa, os Reis Magos, em cima de camelos, chegavam à cabana do Menino Jesus, no presépio.  Milagre da Igreja de Santa Maria de Vinha de Areosa que nada tinha a ver com os de Fátima!

sábado, 18 de dezembro de 2010

What Did You Learn in School Today?

 Li qualquer coisa sobre o tal wikileaks e vejam só o que me veio à cabeça!

What Did You Learn in School Today?

Letra e Música de Tom Paxton

What did you learn in school today, - O que é que aprendeste hoje na escola                      

Dear little boy of mine? - Meu rapaz

What did you learn in school today,
Dear little boy of mine?

I learned that Washington never told a lie.- Aprendí que Washington nunca mente

I learned that soldiers seldom die. - Aprendi que os soldados raramente morrem

I learned that everybody's free. -Aprendi que todos somos livres

And that's what the teacher said to me. - Foi o que o professor me disse

That's what I learned in school today.
That's what I learned in school.
What did you learn in school today,
Dear little boy of mine?
What did you learn in school today,
Dear little boy of mine?
I learned that policemen are my friends. - Aprendi que todos os polícias são meus amigos

I learned that justice never ends. - Aprendi que a justiça nunca acaba

I learned that murderers die for their crimes.- Aprendí que todos os assassinos morrem pelos seus crimes

Even if we make a mistake sometimes. - Mesmo que alguns morram por engano

That's what I learned in school today.
That's what I learned in school.
What did you learn in school today,
Dear little boy of mine?
What did you learn in school today,
Dear little boy of mine?

I learned our government must be strong. - Aprendi que o governo deve ser forte

It's always right and never wrong.- Que o governo está sempre certo e nunca errado.

Our leaders are the finest men. -Que os nossos lideres são homens sérios

And we elect them again and again. - E que temos que os eleger sempre e mais vezes

That's what I learned in school today.
That's what I learned in school.
What did you learn in school today,
Dear little boy of mine?
What did you learn in school today,
Dear little boy of mine?

I learned that war is not so bad. - Aprendemos que a guerra não é assim tão má

I learned of the great ones we have had.- Já tivemos algumas mesmo grandiosas

We fought in Germany and in France. - Já combatemos na Alemanha e em França

And some day I might get my chance. - E algum dia teremos a nossa oportunidade

That's what I learned in school today.

That's what I learned in school.

NOTA
Quem quizer ouvir clique aqui para a versão de Peter Seeger no Youtube
Tentei inserir aqui o vídeo mas o raio da maquineta é mais esperta que eu!

ANTÓNIO RIVAS

Estão ao lado uma da outra e apenas os dez anos as separam. Nunca a amizade. Essa expontânea logo no primeiro encontro em 1994 em Arsèguel na Catalunha. Pela primeira vez os meus olhos espantados viram um acordeonero colombiano tocar, cantar e dançar Vallenato. Ao vivo alí em frente a nós todos. Pelas 3 horas da manhã na Praça de Castellot tocou a GOTA FRIA no bar mais acima. Pôs todo o mundo a dançar. Cinco anos mais tarde esteve conosco em Vila Nova de Cerveira no encontro de tocadores de concertina onde o Vilarinho foi homenageado. Mais tarde esteve em Ponte de Lima. Várias vezes veio a Portugal integrado nas iniciativos dos de D'ORFEU em Águeda. Quem quizer saber mais sobre essa gente dê uma volta pela net em VALLEDUPAR que é uma coisa assim como Ponte do Lima lá do sítio. Tem uma estátua ao acordeonero tal como por cá a estátua ao tocador de concertina. 
Kepa Junquera + Arivas 20  years ago/ Chateaux de Pluvy

António Rivas com Kepa Junkera em 1989 em Chateaux de Pluvy, França.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ALALÁ DAS MARINHAS

Quem não saiba o que é, que o leia.
Quem nunca ouviu que o ouça

E se o arrepio na espinha permitir, que o compreenda.


Santalices, nunca a Galiza foi tão profunda.
Por terras de Orense por onde o Minho e o Lima se preparam para também serem Minhotos sem deixarem de ser Galegos, em dias de brétema, é possivel escoitar a sua voz pelas ladeiras no cantar das águas que os alimentam..




"Tenho unha casinha branca
 na Marinha entre loureiros
 Tenho paz e tenho amor
 Estou vivindo no céo

Ailalaailalalaailalaailalala...

Adeus ó minha casinha                        
Portelo do meu quinteiro
auga da minha fontinha
sombra do meo larangeiro"

Ailalaailalalaailalaailalala...

A ZANFONA

Son cinco cordas que cantan,
que suspiran, rin ou choran,
son a alma de Galicia
morriñenta e soñadora.

Ao seu compás os xograres
trobando en lingua galaica,
fixeron do latín rudo
a nosa "galega" fala
Faustino Santalices