quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Recandidaturas

Já agora aqui vai um texto publicado na A AURORA DO LIMA em 13 de Janeiro de 2006

O Grande Mistificador.

Não! Não se trata de uma qualquer obra de Dali. Se o fosse, no surreal, seria uma obra de arte. Mas como tudo se passa no real é apenas tosco. Uma coisa mais no estilo Pedro Macau.
Isto a propósito, embora assim não pareça, de três notícias vindas a público nestes últimos dias.
- Que a população portuguesa se concentra cada vez mais no litoral do país.
- Que, devido ao despovoamento, a desertificação ameaça já um terço do território nacional.
- Que o mundo rural vai receber, da União Europeia,  7 980 milhões de Euros (mil e    seiscentos    milhões de contos!) entre 2007 e 2013, para financiamento de programas de    desenvolvimento    rural e da agricultura propriamente dita.
Ora o descalabro do Ordenamento do nosso País não é de agora nem é coisa que não tivesse sido prevista e para o qual não tivessem alertado observadores e especialistas aquando da nossa adesão à CEE. Mesmo antes e durante. Basta-me citar o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles para nele personalizar todos aqueles que sempre se manifestaram para a necessidade de enquadrar os favores desta nova era, em grandes objectivos nacionais.
Mas aquando da organização territorial e para “sacar” os dinheiros da CEE – ditos fundos estruturais e de coesão – prevaleceu o velho conceito de que Portugal é Lisboa e o Resto Paisagem.
Os fundos comunitários destinavam-se a puxar pelas regiões mais atrasadas e conseguir a coesão entre todo o território. E no acesso a esse auxílio financeiro o principal critério para se considerar uma região habilitada ao objectivo n.º1 dos fundos estruturais era de que essa região não tivesse atingido o tecto de 75% da média europeia medida em termos do Produto Interno Bruto per capita.
Assim sendo a única região do país que à data já tinha atingido esse patamar era precisamente a região da Grande Lisboa o que, por si só, a deixava já de fora dos apoios referentes a esse objectivo nº.1. Lembremo-nos que estamos a falar de 1985/1986 data da nossa entrada na CEE e lembremo-nos de qual o ciclo político que se iniciou nessa mesma data.
Já então e no dia 2 de Janeiro de 1986, o DIÁRIO DE LISBOA dizia em letras garrafais: 
“CEE: ACTO DE FÉ – O barco já está a andar, falta saber para onde” 
De facto era tudo uma questão de rumo. Tínhamos timoneiro ( dizia-se!) Os fundos da CEE iriam entrar ás “pazadas” e a estabilidade política foi garantida a partir daí, com duas maiorias absolutas consecutivas.
-Então o que é que correu mal?
Voltemos a Lisboa. Dado que a região por si só já não justificava o acesso aos tais fundos de coesão os nossos exemplares estrategos tiveram uma ideia genial. Resolveram criar a Região de Lisboa e Vale do Tejo (RLVT) compreendendo o Distrito de Lisboa, o Distrito de Santarém quase todo, cerca de metade do distrito de Setúbal e cerca de um terço do Distrito de Leiria.
– Sabem porquê?
- Porque como os índices dessas regiões eram de tal forma abaixo dos tais 75%,   fizeram    baixar o da novel região na sua globalidade permitindo a Lisboa ter acesso a fundos que não teria    se considerada isolada. Ou seja meteram Lisboa com o seu avanço no mesmo saco dos    Concelhos periféricos mais carenciados. Digam lá se não foi brilhante a ideia.
– Sabem o que aconteceu??
- Nos anos subsequentes Lisboa acabou por beneficiar de um caudal de investimentos – num    escalão ao qual não deveria ter acesso -  ainda por cima canalizados de uma forma    desproporcional e em  detrimento das restantes sub-regiões.   - Sabem o que aconteceu?
- A Grande Lisboa andou de tal forma para a frente que aí o  índice do PIB per capita se afastou    dos  tais 75% e pesou de tal maneira no conjunto que o próprio índice global da RLVT subiu    acima  desses mesmos 75%. E se tudo ficasse na mesma, a Região  já não teria acesso aos tais    fundos do 1º Objectivo, nos novos quadros comunitários de apoio.  O que deixaria de fora as    sub-regiões   periféricas discriminadas e que foram ficando para trás.
– Sabem o que aconteceu???
- Os tais estrategos, em 2002, extinguiram a Região de Lisboa e Vale do Tejo e os municípios    inicialmente integrantes nesta, foram distribuídos pela Região Centro e o Alentejo, para que, os    Concelhos que dentro da tal RLVT serviram de capacho ao desenvolvimento Lisboeta,    continuassem a receber os tais apoios ao nível do 1º Objectivo.
Digam lá que não foi brilhante. Esperteza saloia elevada à condição de Estratégia de Estado diria eu! Mas tais cabeças iluminadas ainda hoje se consideram os maiores.
Alarmam-se agora com todos os desequilíbrios estruturais de que Portugal sofre como se não houvesse responsáveis. Os tais fundos de coesão foram utilizados precisa e deliberadamente em sentido contrário.  
Isto tudo a propósito da candidatura Cavaco Silva à Presidência da República em cuja campanha   este, por vezes diversas, se tem  enfadado com o avivar das memórias argumentando que o que interessa é a acção futura. Ora  ao contrário daquilo que pretende, o passado conta pois quando nos apresentamos a um cargo pedem-nos o currículo.
E o que é que Cavaco deixou depois de duas maiorias absolutas?
Um país deliberadamente desequilibrado ( repito, deliberadamente desequilibrado) em   resultado das medidas estruturais irreversíveis tomadas precisamente a partir de 1986, quando os fundos de coesão ( coesão linda palavra) entravam a rodos e quando,  precisamente, teria   sido possível conduzir os investimentos no sentido de equilibrar o País como um todo.  Mas, ao   contrário, os fundos de coesão foram utilizados para aumentar as assimetrias. O resultado está à vista.
- Quem era o timoneiro???
- Que ideia tinha do País???
- O que é que mudou de lá para cá.???
O Exmo. Sr. Prof. Aníbal Cavaco Silva já há dez anos se distanciou dos partidos ( pelo menos do seu/dele abandonando-o à derrota eleitoral depois de duas maiorias absolutas) e concorreu, com todo o seu curriculum político, à presidência da República julgando que era trigo limpo. Perdeu!
A prova de que o que o movia (move) não era (é) uma ideia para Portugal, mas apenas a necessidade pessoal de colocar a cereja em cima do bolo de uma carreira política que julga brilhante,  foi o facto de cinco anos passados não se ter recandidatado. Sabia que era para perder. Mandou para a fogueira o Ferreira do Amaral que lhe fez o frete.
Afinal, passados dez anos, o que é que mudou para, desta vez, votarmos em Cavaco? -  Nada!
A não ser a visão concreta do ponto de chegada do tal destino que, em 1986, para o DIÀRIO DE LISBOA ( e não só) era desconhecido.
 A não ser a certeza de que o que sobrou; do regabofe,  das vacas gordas, do oásis, das enxurradas dos dinheiros da CEE, dos tempos gloriosos do Cavaquismo, foi um país vergado pelo peso do betão e cimento armado, das ICs, das IPs, das Vias de cintura internas, intermédias e  externas, a resvalar para o Atlântico, com um terço do território a ficar desertificado e o resto à deriva.
Numa das suas intervenções televisivas Cavaco invocou, em seu abono, Jacques Delors.
É pena que de facto Jaques Delors não esteja presente para se aperceber o que é que se fez com o dinheirinho que disponibilizou a Portugal. Esse senhor veio a Portugal em Outubro de 1988 dar um recado exigindo equilíbrio entre o mundo rural e o Urbano. – Sabem a quem?
Precisamente ao primeiro ministro Cavaco Silva.
– Sabem o que, à data, a propagando cavaquista espalhava aos quatros ventos?  
- “Não faltará apoio para desenvolver as regiões” (sic).
E que no imediato só para no plano integrado do desenvolvimento do Norte do Alentejo os custos ultrapassariam os 24 milhões de contos. Voltando ao início deste texto é caso para perguntar qual foi o destino das verbas disponibilizadas pelo amigo Delors. Essas e as outras.
Um dia será feita a história da oportunidade perdida como o foram os tempos da pimenta da Índia, do ouro do Brasil, da exploração colonial e/ou das remessas dos emigrantes.
Até lá, saudações democráticas e se vislumbrarem razões para tal, votem em Cavaco!
Pela minha parte e não sei bem porquê, (vejam lá!) a única coisa que me vem à ideia é aquele velho aforismo Espanhol ( no mínimo Castelhano).

- Era um tipo tão pequeno, tão pequeno, que não lhe cabia a menor dúvida!

António Alves Barros Lopes
Afife – Janeiro de 2006

Qualquer semelhança com os dias de hoje não é coincidência

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Há mar e AH! O MAR

Mail enviado hoje ao Semanário  Expresso cartas@expresso.impresa.pt

Meus Senhores

Na Revista Única deste último 23 de Outubro há dois títulos deveras complementares;
"O mar: uma prioridade nacional", pag. 22, de Anibal Cavaco Silva e.
" Que grande lata", Pag.58, de Alexandra Simões de Abreu

Ora foi Saramago que melhor sintetizou Cavaco. - O rei das banalidades!

E pergunto;
- Porque é que Cavaco não se lembrou disso, do mar, enquanto Primeiro Ministro?

Sobre este mesmo assunto ver um texto de Gonçalo Fagundes Meira publicado na A AURORA DO LIMA em 22 último.

Quote
"O ABANDONO DO MAR

Cavaco Silva, o nosso Presidente, anda preocupado com a forma como desprezamos o mar e demonstramos não saber explorar os seus recursos. É uma preocupação que se compreende e aplaude. O imenso mar de que dispomos - uma superfície de cerca de 1.683.000 km2 – desde que convenientemente explorado, no domínio dos transportes, recursos alimentares e energéticos e matérias-primas, podia proporcionar-nos vantagens económicas de vulto, tanto mais que somos um país profundamente carecido de riquezas naturais.

O Senhor Presidente da República afirmou recentemente, no congresso sobre portos e transportes marítimos, organizado pela Associação Comercial de Lisboa que, de acordo com estudos efectuados pela comissão europeia, os sectores marítimos tradicionais portugueses, isto é, os transportes, portos e construção naval geram um valor que é mais de três vezes inferior ao valor gerado pela Bélgica, um país que tem apenas 98km de costa. A Espanha, outro exemplo, no seu cluster marítimo gera sete vezes mais valor do que Portugal; e a Dinamarca, um país de população inferior à nossa, produz seis vezes mais valor e três vezes mais emprego nos sectores marítimos.
Nenhum cidadão minimamente informado desconhece que, irresponsavelmente, o mar, desde há muito tempo, deixou de ser prioridade para quem nos governa. O desvario começou nos anos 1970 e nunca mais parou. E Cavaco Silva também nos governou durante 10 longos anos (1985/1995). E no seu extenso período de governação a prioridade também não foi para o mar. Com ele como primeiro-ministro o país esteve submetido à política do betão. Era ver o seu ministro das obras públicas, o senhor Ferreira do Amaral, sempre azafamado, a pagar fortunas aos empreiteiros para concluir atempadamente, ou antecipar, auto-estradas, no sentido de promover folclóricas inaugurações, que alimentavam uma falsa modernidade do país, a denominada economia de sucesso. No tempo de Cavaco Silva o mar foi tão ou mais esquecido que na vigência de outros governos. No tempo de Cavaco Silva o que estava a dar era o novo-riquismo, com a promoção desenfreada do consumismo e da aposta na bolsa, a política do betão do Senhor Ferreira do Amaral e a política da eucaliptização do Senhor Mira Amaral, o governante que nos falava do eucalipto como sendo o nosso petróleo verde.
O que alguma gente pensa é que todos temos memória curta. Em 1993, já nos estertores do cavaquismo, os trabalhadores da indústria naval, a partir de um estudo do seu grupo técnico, no qual também estive inserido, denunciavam a política suicida de completo abandono do mar, por parte dos sucessivos governos, com grande destaque para o de Cavaco Silva. Afirmava-se então que, nos últimos quinze anos, Portugal tinha perdido mais de 50% da sua frota mercante. Àquela data, Portugal dispunha apenas de 62 navios, 45 deles com mais de 10 anos e 17 com mais de 20. Por outro lado, o país tinha dispendido em fretes e afretamentos, só no período 1981/1989, cerca de 700 milhões de contos (3.500 milhões de euros). Entretanto, no período 1979/1993, a indústria naval portuguesa já tinha perdido mais de 15.000 postos de trabalho, com os estaleiros a fecharem portas, especialmente na região de Setúbal, ou a reduzir efectivos, por falta de encomendas de navios.
Mas se as políticas adoptadas em relação ao transporte marítimo e à frota mercante foram desastradas, não o foram menos para outros sectores da actividade marítima. No domínio das pescas, assistiu-se a uma capitulação vergonhosa perante as exigências da Comunidade Económica Europeia, com o abate de barcos, muitos deles em excelente estado de operacionalidade, embarcações dotadas de condições para pescar no mar durante largos dias, a troco de algum dinheiro, que foi importante para alguns pescadores em idade avançada, mas que atirou com muitos outros para situações de grande precariedade, e reduziu brutalmente as quantidades de peixe pescado. Alguns números ilustram bem esta evidência. Na década 1990/2000, já com o slogan da economia de sucesso a esboroar-se, o nosso volume de pesca passou de 319.000 toneladas para 150.000, a frota pesqueira reduziu-se de 16.000 embarcações para 10.750 e o número de pescadores matriculados diminuiu, no mesmo período, de 41.000 para 25.000. Ainda durante esta década, a indústria conserveira viu a sua capacidade de produção reduzida em mais de 60%.
O ditado é velho: contra factos não há argumentos. Basta alguma informação, não muito exaustiva, para por a nu a política funesta que foi praticada em relação ao mar em Portugal, por toda esta gente que nos governou. Indiferentes aos protestos daqueles que apenas pretendiam trabalhar e defender a economia do país, eles foram-se encarregando de, em boa medida, anular áreas económicas (o mar, a agricultura, a industria, etc.) fundamentais para a nossa independência em relação ao exterior.
O Presidente da República não foi eleito com o meu voto, nem o receberá quando de novo se candidatar. Tenho, no entanto, o conveniente respeito pela função que vem desempenhando e pelo seu trabalho, que, salvo em algumas situações pontuais, se tem pautado pelo equilíbrio e pela sobriedade. Era bom, porém, que não escamoteasse responsabilidades em relação à situação de desastre e penúria com que o país se defronta e a opções que não foram feitas. Fica-lhe bem incentivar e alertar para os prejuízos que resultam do nosso abandono do mar, tal como aconteceu com outros segmentos da nossa economia, mas, ao mesmo tempo, não deve esquecer os crimes de governação que foram cometidos, em relação aos quais não está imune.



Caixas

Nenhum cidadão minimamente informado desconhece que, irresponsavelmente, o mar, desde há muito tempo, deixou de ser prioridade para quem nos governa. O desvario começou nos anos 1970 e nunca mais parou

No tempo de Cavaco Silva o mar foi tão ou mais esquecido que na vigência de outros governos

No período 1979/1993, a indústria naval portuguesa já tinha perdido mais de 15.000 postos de trabalho

Na década 1990/2000, já com o slogan da economia de sucesso a esboroar-se, o nosso volume de pesca passou de 319.000 toneladas para 150.000, a frota pesqueira reduziu-se de 16.000 embarcações para 10.750 e o número de pescadores matriculados diminuiu, no mesmo período, de 41.000 para 25.000
Unquote

Ou seja certas intervenções mesmo vindas do Nosso Presidente da República sabem a oco desde que proferidas por  Aníbal Cavaco Silva.

Cumprimentos

António Alves Barros Lopes
Afife

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

FADO FADOS

Fado daqui e dali. Fado em cima e em baixo. Fado de dentro e de fora. Fado que foi, já não é. Fado agora é que é.
Pois é!
- Como é que o Alberto Sardinha veio cá parar? Ele era mais concertinas!
Morreu o Marceneiro, morreu a Amália!
Temos o Camané e a Marisa mas quem me levava aos fados era a Ana Moura!
Galiza minha Galiza como adoras a Dulce Pontes que por cá não desanda!
Mas no meio disto tudo, de todas as celebrações, por que raio é que não falam de Francisco Stoffel?
Perguntei isso mesmo ao João Braga em 2004, no Casino de Afife, por ocasião do centenário do nascimento do Dr. Pedro. Depois, em Lisboa, no dia do Portugal-Inglaterra, na sua casa alí à Lapa, explicou-me.
E há sempre alguêm de memória longa e o youtube também. Vão ao link de Francisco Stoffel
e compreenderão porque não falam nele.
Talvez por acanhamento!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ORDENAMENTO DA FLORESTA

ORDENAMENTO  DA FLORESTA?

QUEM FOI QUE A DESORDENOU??

( Subsídios  para a história do Monte de Areosa e algumas generalidades sem importância)

Bem, o que eu queria dizer era mesmo O MONTE. E isto no respeito que toca à Paróquia de Santa Maria de Vinha, crismada de Areosa, onde nasci. E desde que comecei a tomar conhecimento de mim e da minha circunstância sempre ouvi falar em ir ao Monte. Floresta foi uma coisa que por cá tinha aparecido por volta de 1940 e sempre que a essa coisa os da minha terra se referiam, isso queria dizer SERVIÇOS FLORESTAIS que, nessa data, sujeitaram compulsivamente os Baldios de Areosa ao Regime Florestal.
Primeiro era o Monte Baldio depois veio a Floresta. Foi o que sempre ouvi dizer. O que não é a mesma coisa como se vai ver.
O Monte foi sempre um elemento integrante e integrado da e na vida da gente da minha terra e em cima do seu valor foi construído, desde tempos imemoriais, todo um sistema social e económico sem o qual não poderia sobreviver nem tal se justificaria. O ciclo era sempre o mesmo. O Monte produzia o mato. O gado era criado nas cortes e nos eidos. A veiga alimentava o gado. A veiga, para produzir,  necessitava de ser adubada. As vacas cagavam e mijavam. Para manter o estábulo seco era necessário fazer-lhes a cama todos os dias com material adequado. Nada melhor que o mato que misturado com a bosta compostava o melhor fertilizante que, depois de curtido, era arrancado e distribuído nas veigas. Assim, todos os anos, todas as casas de lavoura subiam ao monte para cortar mato. O ciclo completava-se e ai de quem deixasse uma leira por estrumar. Mesmo assim e como complemento os da minha terra  iam ao argaço e esgotavam as fossas da Ribeira.
Voltando ao Monte, é evidente que este dava muita mais coisa. Lenha, caça e espaço para pastoreio. Mas depois veio a Floresta!
Aqui chega-me á ideia uma quadra que aprendi com o Nelson de Covas, O Vilarinho

O Lugar de Vilarinho
Todos dizem que não presta
Estava-se lá muito bem
Se não fosse a floresta

O que quer dizer que não foi apenas em Areosa que a desgraça tocou!

Ora o Monte era afinal todo o território que ficava para Nascente da bordadura dos muros dos lugares e quintais das últimas casas encostadas a esse mesmo monte. Isto de Norte a Sul, desde Carreço até Monserrate e até aos limites da Freguesia com Santa Maria Maior, Meadela, Perre, Outeiro e Afife.

Se nos situarmos nos inícios do século dezanove esse monte era Baldio na sua globalidade. Pelo meio existiam propriedades particulares como a Quinta do Martins. Outras, também particulares, eram as bouças. Umas isoladas como a Bouça do Lourenço ou a Bouça do Frade. Outras em conjunto como as de S. Mamede, uma grande concentração e as de São Pedro, em menor quantidade. Mais algumas nas Borralhadas. Ora a área Baldia era usufruída pelos moradores em comum. E, possivelmente, o corte de matos seria feito aleatoriamente nos locais mais próximos mais acessíveis e de melhor produção e manuseamento como eram as chãs. No entanto o aumento de número de fogos e a necessidade de mais áreas cultivadas levou decerto a duas preocupações. Em primeiro lugar evitar que os moradores, individualmente considerados, tomassem abusivamente conta de alguma área comunitária Em segundo lugar disciplinar o próprio processo de corte de matos.
Assim e como não houvesse qualquer vínculo nem foral desse terreno baldio, suplicaram em 1825 os de Areosa ao Rei, para que o mesmo lhes fosse aforado perpetuamente fundamentando precisamente nessas duas razões; a da necessidade de matos e impedir ocupações e tomadas por particulares em prejuízo da lavoura. O rei acedeu e o Baldio de Areosa foi aforado aos seus moradores ficando estes a pagar foro ao Senado da Câmara de Viana. Com este documento resolveram o primeiro problema assegurando também o fim principal a que se destinava o baldio precisamente o do roço anual dos matos. Quanto ao segundo, não havendo documentos ou memória desses tempos será plausível ter em conta a situação que existia nos princípios do século vinte para aceitar que já cem anos antes os de Areosa teriam dividido o monte em faixas Norte/Sul a que chamaram partilhas ou trechos, organizadas em três quadriculas Nascente/Poente correspondendo cada uma dessas quadrículas à respectiva Quadrilha, hoje lugares; de Além do Rio, do Lugar do Meio e da Povoença. Por sua vez cada uma dessas quadrículas era dividida em Glebas ou Sortes numa quantidade mais ou menos igual ao número de casas de lavoura existente em cada Lugar. Eram aquilo a que se chamava as sortes do roço de mato anual. E todos os anos essas glebas eram sorteadas - por isso se chamavam sortes - pelas casas de lavoura do respectivo lugar em que sendo num ano sorteada uma determinada partilha no ano seguinte seria a partilha subsequente. Com esse sorteio evitava-se que uma determinada casa cortasse mato sempre no mesmo sítio. Ora fácil é entender que esse processo garantia que num determinado momento uma partilha ficasse limpa, outra tivesse mato de um ano, a outra de dois e assim sucessivamente. O que levava a que cada partilha fosse limpa de cinco em cinco anos (partindo do princípio que o número de partilhas correspondia a esse  ciclo). Fácil é também concluir o que esse xadrez contribuía para a protecção do próprio Monte. Sabe-se dessa divisão já que em 1860 foi decidido pela Junta de Paróquia partir o monte em sortes e até ás Bouças de S. Mamede. Não se sabendo quantas partilhas haveria nessa data. Nem se o roço iria para além de S. Mamede.
Em 1881 parte do monte aforado foi acoutado por postura Camarária. Pela descrição dos limites desse acoutamento se conclui que uma grande parte do baldio ficou interdita ao corte de matos e ao pastoreio. A única razão plausível para tal terá sido dar descanso a esses terrenos escalvados por essas acções. Ficando utilizáveis apenas as áreas sobrantes a Nascente e a Poente
Em 1884 a Junta da Paróquia resolveu atribuir as sortes da encosta Poente, de uma forma definitiva, uma a cada uma das casas de lavoura existente à data. Essa divisão corresponde ao que os de Carreço chamam de Baixa Vertente ou Primeira Partilha ou seja, a encosta virada ao Mar. Cada casa tomou conta da sua Gleba e a partir dessa data essas sortes passaram a ser propriedade privada das respectivas famílias entrando nos inventários de partilhas. Isto porque já desde e por volta de 1840,  cada casa vinha tendo a seu cargo uma determinada sorte de uma maneira fixa e nas quais cada um já tinha investido em sementeira de pinheiro. Ou seja desde 1840 os de Areosa entenderam arborizar a baixa vertente valorizando as propriedades que mais tarde lhes seriam atribuídas definitivamente, incidindo a partir daí o roço anual no restante Baldio a Nascente. Essa “privatização” de parte do Monte Baldio resultou na divisão em 319 sortes. De notar que mesmo nas matrizes de 1939 resultantes do incêndio das finanças em  S. Domingos, ainda se podem encontrar os mesmos nomes dos proprietários (ou seus familiares) a quem as sortes foram atribuídas em 1884.
A partir de então ficou o restante Baldio a Nascente reduzido, ao que suponho, a cinco partilhas onde as sortes do roço anual terão continuado a ser sorteadas.
Essas sortes da Primeira Partilha ao serem privatizadas começaram a ser objecto de uma atenção especial por parte dos proprietários pois estando garantido o roço anual no restante baldio continuaram a fazer sementeira de arvoredo e muito lentamente a Baixa Vertente começou a ser arborizada.
Isto até Janeiro de 1922, altura em que a Junta de Freguesia de Areosa remiu definitivamente o Foro à Câmara de Viana, pagando em definitivo o mesmo, conforme escritura notarial dessa data. Passando assim á posse definitiva do Baldio agora sem qualquer vínculo ou encargo perante entidade terceira.
Logo após e já em Fevereiro desse ano, a Junta de Freguesia de Areosa iniciou um processo de privatização das Sortes da Segunda Partilha. As SORTES DE VINTE ANOS. Assim a Junta de Freguesia atribuiu em definitivo uma sorte a cada uma das casas de lavoura existentes á data e desta vez na partilha imediatamente a Nascente da primeira.
Desta vez a divisão foi feita em 408 parcelas o que quererá dizer que desde 1881 o número de fogos em Areosa terá aumentado em cerca de 90.
Ora tendo as Finanças ardido,  foi feita nova  matriz das propriedades em 1939. E já nessa data as SORTES DE VINTE ANOS foram matriciadas no nome dos respectivos proprietários. E também já tinham entrado em inventários de partilhas. E da mesma forma que tinha já acontecido na “privatização” anterior, os proprietários das SORTES DE VINTE ANOS investiram entre 1920 e 1940 na sementeira dessa área, agora não só de penisco mas também no plantio eucaliptos, novidade da época.
Assim e por isso, desde 1920 e até 1940 o roço anual passou a ser efectuado em quatro partilhas ou trechos na parte restante do baldio para Nascente (esta quantidade está documentada) que eram as partilhas existentes quando os Serviços  Florestais interferiram no sistema. Já veremos!
Assim a propriedade privada do monte passou a ser a faixa da primeira partilha e também a das SORTES DE VINTE ANOS. E muito mais vincado foi o esforço de cada um em plantar arvoredo naquilo que a cada qual passou a pertencer. Para além da sementeira de penisco iniciou-se um processo de plantação de eucaliptos que á data -  primeiras décadas do século vinte – era uma inovação como já disse. Isto porque o roço anual continuava a ser garantido na área remanescente do Baldio Grande. E não é por acaso que chegados ao dia de hoje são ainda as propriedades particulares que se apresentam arborizadas.
Mas todo este advir, não assim tanto à sorte, foi bulido por um acontecimento que veio alterar dramaticamente a relação dos de Areosa com o seu Monte. O Estado Novo resolveu submeter ao regime florestal estatal os Baldios do Continente. Para tal a Junta de Colonização Interna elaborou um inventário de todos os baldios existentes. Os de Areosa informaram para esse inventário que os seus Terrenos Baldios não eram assim tão baldios pois tinham sido aforados à Freguesia e esta tinha remido definitivamente esse foro. O certo é que nesse tal inventário, na Freguesia de Areosa, é tido como não tendo sido encontrados baldios.
Mas isso de nada adiantou. Em 1940 os Baldios pertencentes à Junta de Freguesia  de Areosa foram sujeitos ao regime florestal parcial integrados no Perímetro Florestal de Santa Luzia. Para tal celebrou-se um inquérito na Câmara Municipal de Viana do Castelo ao qual os de Carreço, os de Areosa, os de Outeiro e de Freixieiro de Soutelo não comparecerem enviando á tutela diversos documentos a dizer que não aceitavam essa sujeição dado que os montados não lhes tinham sido aforados para tal e que as áreas florestadas estavam perfeitamente definidas em cada Freguesia. De nada lhes adiantou.
Os de Areosa foram até ao Supremo e perderam. Sem apelo nem agravo Areosa deixou de gerir o que lhe pertencia com a agravante de os Serviços Florestais argumentando que as tais SORTES DE VINTE ANOS eram baldios e não propriedades particulares também tomaram conta desses terrenos ficando os respectivos proprietários a ver navios impedidos de usufruir daquilo que lhes pertencia. Esta situação só foi resolvida dez anos depois, já em 1953, com uma devolução ( muito bem encenada) aos legítimos proprietários dessas sortes num processo mirabolante que será objecto de uma outra crónica. De realçar que a lista de proprietários em 1953 corresponde ás matrizes de 1939.
Além do abuso, e da dramática alteração do relacionamento da lavoura de Areosa com o seu monte, a sujeição ao regime florestal causou danos patrimoniais a Areosa que eu pressinto de irreparáveis.
Na trapalhada da tal sujeição ao regime florestal, os Serviços Florestais tomaram conta, sem qualquer legitimidade, de um terreno Baldio pertencente a Santa Maria Maior que, desde a Cova do Gato, cai para Abelheira entre S. Francisco e a Quinta da Malafaia. E isto sem que no tal inventário da Junta de Colonização Interna, nem no inquérito de 1939, nem no Decreto da Sujeição, houvesse notícia de qualquer terreno pertencente a Santa Maria Maior.
Ou seja esse tal terreno foi sujeito ao regime florestal como pertencendo a Areosa. Os talhões de floresta lá definidos foram, desde o princípio atribuídos, a Areosa.
Em 1966 aconteceu uma situação caricata. A Câmara Municipal de Viana do Castelo tenta promover um auto de inquérito de sujeição ao regime florestal desses mesmos terrenos dando-os como “…pertencentes a este (Câmara) Corpo Administrativo…”
Juntando uma planta dos mesmos sem ter em consideração que parte deles pertenciam ao Baldio De Areosa. Deu tudo em águas de bacalhau dado que na data não apareceu nenhum Presidente da Junta, Regedor, Pároco ou proprietário das Freguesias envolvidas.
Como os de Santa Maria Maior repararam que tinham terrenos nessas paragens solicitaram aos Serviços Florestais a regularização dos mesmos reclamando junto deste organismo. Em consequência e em Outubro de 1973, realizou-se na Câmara de Viana do Castelo um auto de inquérito de sujeição ao regime florestal parcial
“…duma parcela  de terreno baldio com a área de 42 ha (!!!) sito nas freguesias de Santa Maria Maior, Meadela e Areosa.”
Acompanhava esse auto de inquérito uma planta topográfica com uma divisão incorrecta das Freguesias. A Cova do Gato não consta nessas plantas. O terreno aí representado nem na Meadela tocava. Continuava a ser ignorar que a parte baldia de Areosa já tinha sido sujeita ao regime florestal. Para aumentar a confusão o representante da Câmara, invocando o Código Administrativo em vigor á data, argumenta que estando os terrenos baldios em três freguesias os mesmos eram Municipais (!!!) fazendo tábua rasa do aforamento do Baldio de Areosa e da divisão entre esta e Santa Maria Maior.
Na respectiva acta os representantes de Santa Maria Maior demonstram um total desconhecimento daquilo que estava em causa tendo um deles declarado que concordava que todo o baldio fosse municipal e não apenas aquela parcela!!!.
Valeu então o discernimento do Padre Quintas então prior de Areosa e do senhor José Minas Presidente da Junta á data, que assinaram vencidos tendo relatado para a acta as razões dessa posição; precisamente do facto do mapa estar errado e de não terem sido tidos em conta os documentos do aforamento. Até hoje o assunto, que eu saiba, não foi resolvido.
Enfim o resultado de toda esta trapalhada está á vista. Havia um sistema ancestral.
Areosa tinha o monte ordenado. Havia uma zona arborizada perfeitamente definida em relação ao baldio, neste as Bouças garantiam uma certa descontinuidade tanto pela existência dos muros como do trato especial que os proprietários lhes dedicavam equivalente ao que dedicavam nas sortes particulares.
No Baldio e em cada  momento havia uma partilha limpa de matos, outra com matos de um ano, outra com matos de dois anos, outra com matos de três, outra com matos de quarto e, ao quinto ano, tornava-se a limpar a primeira. E nisto ainda assim cada partilha dividida por três lugares o que equivalia a uma quadrícula de doze áreas permanentemente limpas em xadrez.
Na Chão Grande, pelo Maio, o roço do mato era uma festa. Juntavam-se os de Outeiro com os de Afife,  Areosa e de Carrêço. Vinha também gente de Perre e da Meadela. Por causa dos limites ouve pancadaria. Mas também o convívio deu em casamentos.
Havia também o pastoreio do gado no  Monte Baldio. E pastar o gado significava levar não só vacas mas também caprinos e principalmente ovinos. Não havendo grandes rebanhos, a não ser em S. Mamede, a quantidade destes andaria por metade do contingente de gado bovino dado que era tradição cada casa ter ovelhas mais ou menos nessa proporção.
O Monte Baldio era também percorrido pelos burros da chão - que afinal não eram burros mas sim garranos que se criavam no estado selvagem. Tudo acabou com a chegada dos serviços Florestais. O pastoreio foi fortemente condicionado, proibido até! 
A minha mãe pagou aos Serviços Florestais, de  multa para resgatar uma ovelha que lhe fugira para o baldio, uma quantia igual ao valor do bicho!
A criação dos cavalos acabou. O sorteio do roço anual foi condicionado pelos Serviços Florestais extinguindo-se a sua prática nos finais dos anos 50. Desde essas alturas cortar mato dependia do chapéu na mão junto do Administrador ou de outras coisas junto ao guarda. Os últimos Areosenses a marcar o monte foram o Tio Arnaldo Fagundes e o Tio Zé do Viúvo. Quanto a este último o Senhor António do Cascudo ou do Marrães contou-me que, ainda miúdo, um ano, o acompanhou nesse trabalho. Levava o Tio Zé, no alforge, uma garrafa de vinho branco. Na subida ao monte partiu a garrafa. Não havendo vinho não houve marcação e voltaram para casa.
Por fim o descalabro dos anos 60 foi tal que já na década seguinte se cortava mato por qualquer lado sem que alguém se importasse com isso!
Hoje apenas subsiste um rebanho significativo em S. Mamede. Quanto á criação de cavalos no estado selvagem, ( que na Galiza nunca foi interrompido dando origem a uma celebração -  A RAPA DAS BESTAS- que faz parte dos roteiros turísticos), as minhas homenagens aos de Outeiro e a todos que com eles colaboram, que constituíram uma associação e reataram no nosso Monte essa mesma tradição.    
O curioso é que as nossas autoridades descobriram recentemente que as cabras ovelhas e o pastoreio seriam os limpadores naturais dos montes e estudam agora a reintrodução de 150 mil cabras de parceria com a Espanha, na região de Guarda, Bragança, Zamora e Salamanca. Mãe do céu que descoberta! Parece que nunca ouviram o Arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles a pregar aos peixinhos desde há quarenta anos a esta parte!
Ou seja, depois da palermice do Estado Novo na matéria, depois da Abrilada, depois de então para cá, não terem feito nada mais senão destruir o meio social de onde os pastores despontavam, os novos dirigentes repararam em tal coisa. Mais vale tarde que nunca. Valha-nos isso!  

Ora se agora andam para aí a dizer que há que ordenar a floresta é de perguntar quem a desordenou! O mundo rural foi invadido, usurpado, humilhado, destruído, abandonado.

Em 1980 Areosa ainda tinha 124 produtores de leite o que equivaleria a que presumo a um contingente de cerca de 250  de vacas leiteiras. O total de cabeças de gado bovino seria superior. De realçar que nesta data já era notório o declínio iniciado nos anos sessenta. Nos tempos áureos e tendo em conta as sortes de vinte anos estimo que esse contingente tivesse atingido as oito centenas
Depois da nossa entrada na CEE, em 1986, tudo se precipitou. Esse gado que se criava no convívio da área habitacional de Areosa, desapareceu. Os eidos e as esterqueiras deram boas garagens. O mato fica por cortar. Hoje não há um único produtor de leite. Os postos de recolha encerraram. É evidente que seria impensável, nos dias de hoje, ter duas ou três vacas por cada casa de Areosa. Mas também é certo que esse sistema não evoluiu para lado algum. Poderia ter dado origem a três ou mais  explorações, pelo menos uma por lugar,  cada uma com 150 cabeças de gado. Mas, hoje, nem isso seria possível. O Plano Director não permite. Cheiraria mal e seria proibido!  Foi o que aconteceu em Carreço quando alguém se lembrou de propor o coberto arbóreo da encosta Norte de Montedor para instalações pecuárias.
Dizem que é o progresso e o desemborbimento. Eu chamar-lhe-ia outra coisa. À ordem antiga deveria suceder ou evoluir para, uma nova ordem. Mas ao acabar com o que vinha a ser feito isso foi substituído por nada e coisíssima nenhuma. A isso chamo-lhe estagnação, senão retrocesso. E regiões há em que este abandono e desertificação nem sequer aos tempos anteriores da reconquista se podem referenciar. Nem ao tempo pré-romano. A vida castreja centrava-se no meio dos montes.
Assistiu-se á litoralização do país. E ao abandono físico do interior correspondeu nas áreas mais densamente povoadas à perca do sentido da ruralidade. O pessoal aburguesou-se. Tudo o que se come não vem da terra, vem do supermercado.. E mesmo onde há gente a mais os montes estão abandonados. Filhos e netos de grandes lavradores assumem hoje que nem sabem onde se localizam as suas propriedades.
O Mundo Rural, o tal do retrógrado Salazar, afinal de todos nós, foi desmantelado, destruído, abandonado.
Os de agora tentam remediar a coisa. Já em 1999 foi lançado o Programa  de Acção Nacional de Combate à Desertificação. O PANCD, ver DR de 09/07/1999, do qual, resultados desconheço.
Mais recentemente apareceu o PRODER programa de apoio ao desenvolvimento rural do continente, para o período 2007-2013, aprovado pela Comissão Europeia, Decisão C(2007)6159 de 4 de Dezembro. Ao que consta de fraca execução.
Há também OS NOVOS POVOADORES. Um programa de incentivos para fixação de gente no interior, iniciativa de uma entidade privada (!!!) que ao que consta não saiu do papel. Mas Salazar tinha uma solução preventiva para um problema que décadas depois viria a surgir por acção (ou omissão) de um bando de mentecaptos a haver. Desde 1936 Salazar, para fixar gente no interior do país,  tinha a JUNTA DE COLONIZAÇÃO INTERNA. Ou seja Salazar, afinal de contas, era um génio! Não que a minha opinião sobre Salazar tenha mudado. Para mim sempre foi e será uma calamidade política que se abateu sobre Portugal. A genialidade de Salazar só é vislumbrável tomando por base de comparação a imbecilidade dos decisores políticos do após 25 de Abril, com especial incidência daqueles que apareceram desde que se lembraram de meter Portugal na CEE, pois nesse entretanto, dada a balbúrdia reinante, não deu para grandes coisas. 
Os economistas da nossa entrada na CEE não repararam que ser lavrador não é uma profissão mas sim uma filosofia de vida. E não contabilizaram o trabalho silencioso da lavoura. Não entenderam que a lavoura não tinha, nem tem, como atribuição social, apenas colocar no mercado produtos a preços competitivos. No entender dessa gente o que se come vem dos supermercados, a preços de concorrência com as importações, e não da terra. Assim esta será, por consequência, para ser abandonada ou sacrificada ao betão e cimento armado.. Fizeram então desaparecer aquela miríade de pequenos lavradores que garantiam a ocupação do território e a manutenção de espaços que hoje das duas uma, ou estão abandonados aos incêndios implicando um combate cujo custo, de milhões, sai dos bolsos de todos nós ou se mobilizam brigadas em limpezas pagas da mesma forma. Ou tudo junto ao mesmo tempo.
Curioso é verificar que a política para a nossa lavoura foi sendo o inverso daquilo que se aplica na colecta dos impostos. Aqui, vale mais o pouco de muitos do que o muito de poucos. Na agricultura partiram do princípio que o inverso é que era! O resultado está à vista!
Assim se agora andam a apregoar que é necessário ordenar a floresta pode perguntar-se pelo menos no que toca a Areosa, quem é que a desordenou. Isto para os de memória curta e para quem não conhece a história. Poderá ajudar a não serem cometidos os mesmos erros.

Depois desta arenga talvez deixem de ficar surpreendidos com o monte a arder.
Isto é partindo do princípio que alguém se preocupa com isso!
Quando vier o Inverno já ninguém vai falar de incêndios
Estas coisas têm a sua época. Como tudo!


Afife, Outono de 2010

António Alves Barros Lopes

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ditadura na democracia

Em ditadura há um gajo que assume saber mais que todos os outros e toma conta do poder!

Na democracia cada um prentende saber mais que qualquer um dos outros sem que tal influencie o exercício do poder. Ou seja, aqui, o que verdadeiramente é democrático é a presunção da sabedoria. Ora, como essa é como a água benta, cada um toma a que quer, o poder, como a conhecida caravana que passa pelos cães, vai-se exercendo qual ditadura!


Mãe de Deus! O que e veio à ideia!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Ruralidades

Segundo o DN de 12 de Setembro de 2010 (pg. 11) o nosso Presidente Cavaco Silva disse nas Feiras Novas de Ponte o seguinte " vale a pena sublinhar o peso da tradição do mundo rural, um pilar essencial da identidade portuguesa." 

Mesmo assim e apesar de tudo! Acrescentaria eu.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A Origem das Espécies ou quem chegou primeiro. - A fala ou a escrita?

ESPETADORES

Li na última VISÃO, pg. 99.

''A espécie das origens

Estimados senhoras e senhores, espetadores, companheiros, camaradas, cidadãos, massas. multidões e sociedade civil: eis-nos em sessões contínuas.  A Cinemateca dedica um ciclo ao tema Povo.''

Ora espetadores, dada a pouca frequência do emprego desta palavra, leva-me aos picadores dos touros nas corridas espanholas. Assim como picador é aquele ou aquilo que pica, espetador será aquilo ou aquele que espeta.

Há uma outra palavra que soletro:  es-pé-que-ta-dor, que quer dizer outra coisa e que no tempo do Mário Viana, professor que me ensinou a ler, escrever e contar e no tempo do Quintas Ramos, o esganarelo, que me abriu os olhos para as literaturas, se escrevia espectador.

E como estamos num país livre ( com liberdade a mais, como dizia a minha avó Rosa, que morreu em 1982!) continuarei a soletrar e a escrever, conforme aprendi, sempre que me queira referir aos espectadores.  Isto até pelo respeito que os mesmos me devem merecer  (espreitas excluídos). 
A não ser que, enquanto tal, estejam a espetar ao mesmo tempo.
O que até é possível!